O capítulo de uma olhada
Continuação direta de Lucas 23, que terminou com as mulheres preparando os perfumes e repousando no sábado. Agora é o primeiro dia da semana, e tudo o que você vai ler aconteceu em um único dia, do amanhecer até a noite.
As três chaves
O sepulcro, e as mulheres de quem riram (1-12)
Elas chegam de madrugada com os perfumes que tinham preparado. A pedra está removida e o corpo não está lá. Aparecem dois homens com vestes resplandecentes, e vem a pergunta que resume o Evangelho inteiro: por que buscais entre os mortos o que vive?
Em seguida a instrução não é "olhai", é lembrai-vos: de como ele falou quando ainda estava na Galileia. E o texto marca o momento exato da virada: e elas se lembraram. O que faltava não era informação nova, era ligar o que já tinham ouvido.
Elas voltam e contam tudo aos onze. Lucas dá nome: Maria Madalena, Joana, Maria mãe de Tiago e as outras que estavam com elas.
As primeiras testemunhas da ressurreição foram mulheres, e o primeiro grupo a desacreditar do testemunho foram os apóstolos. Lucas registra isso sem suavizar, e quem escreve um relato para convencer não inventa um detalhe desses: escreve porque foi assim.
Pedro então corre ao sepulcro, se abaixa, vê os lençóis postos à parte e volta maravilhado, que é diferente de convencido. Ele viu e ainda não entendeu.
Emaús: a cena que só Lucas conta (13-35)
Dois discípulos vão para uma aldeia a sessenta estádios de Jerusalém, uns onze quilômetros. Um deles se chama Cleopas; o outro Lucas não nomeia. Vão conversando sobre tudo o que tinha acontecido, e Jesus se aproxima e caminha com eles. Mas os olhos deles estavam como que fechados, e não o conheceram.
Ele pergunta do que estão falando, e por que estão tristes. Eles param, com o semblante carregado, e contam a história inteira para a própria pessoa de quem estão falando, o que é uma das ironias mais bonitas do Evangelho.
"Nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel."
Esperávamos. No passado. É a frase de quem já encerrou a conta. E repare que o problema deles não era falta de informação: eles sabiam do sepulcro vazio, tinham ouvido as mulheres, sabiam da visão dos anjos. Sabiam tudo e continuavam indo embora da cidade.
A resposta dele é firme: ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram. E então, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que estava escrito a respeito dele.
Pense no tamanho disso. A primeira coisa que ele faz depois de ressuscitar é dar aula. Não aparece glorioso no templo, não se mostra a Pilatos, não acerta contas com ninguém. Caminha onze quilômetros com dois desanimados e ensina.
Fica conosco, porque é tarde
Chegando perto da aldeia, ele fez como quem ia adiante. E eles o constrangeram a ficar: fica conosco, porque é tarde e o dia já declinou. Ele entrou para ficar.
À mesa, ele tomou o pão, abençoou, partiu e deu a eles. Então se abriram os olhos deles e o reconheceram, e ele desapareceu da presença deles.
E eles disseram um ao outro a frase que fecha a cena: porventura não ardia em nós o nosso coração quando nos falava pelo caminho? Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém, os onze quilômetros de volta, de noite.
Um espírito não tem carne nem ossos (36-43)
Enquanto os dois contavam tudo isso, Jesus apareceu no meio deles e disse: paz seja convosco. E a reação dos apóstolos é descrita com precisão: espantados e atemorizados, pensavam que viam um espírito.
Ou seja: para aquelas pessoas, a aparição de um Espírito era coisa conhecida e possível. Eles não discutem se isso existe, eles se assustam porque acham que é isso. A possibilidade era parte do mundo deles.
E então vêm as palavras que o Espiritismo lê com mais atenção que qualquer outra passagem do Evangelho:
Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.
E, como ainda não criam por causa da alegria, perguntou se tinham algo de comer. Deram-lhe um pedaço de peixe assado, e ele comeu diante deles.
O que a Doutrina lê aqui
Esta é a passagem que Kardec examina ao tratar das aparições de Jesus depois da morte, em A Gênese, no capítulo sobre os milagres do Evangelho. A leitura espírita se apoia em duas observações do próprio texto:
A explicação da Doutrina reúne as duas coisas sem precisar escolher entre elas: o que se mostrou ali foi o corpo astral (perispírito), que é o corpo do Espírito, e que pode tornar-se tangível por ação dos fluidos, a ponto de ser tocado e de produzir todos os efeitos de um corpo material enquanto a condição dura.
Era disso que eles precisavam para deixar de ter medo. A prova foi escolhida pela necessidade de quem estava na sala, exatamente como a lembrança serviu às mulheres e a explicação serviu aos de Emaús.
Ver A Gênese, cap. XIV, sobre os fluidos, e cap. XV, sobre os milagres do Evangelho; e O Livro dos Médiuns, segunda parte, nos capítulos sobre as manifestações visuais
Ver também Condensador ectoplásmico e Duplo etérico
A missão, e a ordem de esperar (44-49)
Ele retoma o que já vinha dizendo: era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito a respeito dele na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. E então Lucas escreve uma linha que vale o capítulo: abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras.
A missão que ele define tem três partes, e vale separar:
- O conteúdo: que se pregue em seu nome o arrependimento e a remissão dos pecados.
- O alcance: a todas as nações, começando por Jerusalém. Lucas, que escreve para quem está fora de Israel, faz questão dessa frase.
- O papel deles: vós sois testemunhas destas coisas. Não juízes, não donos: testemunhas, que é quem conta o que viu.
Acabou de dar a eles a maior tarefa possível, e a primeira ordem é esperar. Não sair correndo, não começar pela metade, não confiar no próprio entusiasmo. Há um tempo de preparo que não se pula, e o próprio Cristo manda respeitar.
Betânia, e o livro que não termina (50-53)
Ele os levou até Betânia, levantou as mãos e os abençoou. E enquanto os abençoava, apartou-se deles e foi elevado ao céu.
O gesto final dele é uma bênção, e a imagem é de uma delicadeza enorme: a última coisa que eles viram foram as mãos dele levantadas sobre eles.
E o Evangelho fecha de um jeito que surpreende quem espera luto: eles voltaram para Jerusalém com grande júbilo e estavam sempre no templo, louvando a Deus.
O que só Lucas conta neste capítulo
| Versículos | O que é | Por que importa |
|---|---|---|
| 5 | "por que buscais entre os mortos o que vive?" | a afirmação da sobrevivência, em forma de pergunta |
| 11 | as palavras das mulheres pareceram desvario | registra o descrédito dos próprios apóstolos, sem suavizar |
| 13-35 | a estrada de Emaús inteira | a cena de reconhecimento mais longa dos evangelhos, e não existe em nenhum outro |
| 39 | "um espírito não tem carne nem ossos" | a passagem central para o estudo espírita da ressurreição |
| 41-43 | o peixe assado comido diante deles | a tangibilidade demonstrada, e não apenas afirmada |
| 50-53 | a bênção em Betânia e a ascensão | só Lucas narra a ascensão, e narra duas vezes: aqui e no início de Atos |
O que eu levo deste capítulo
E a frase que eu levo inteira: por que buscais entre os mortos o que vive?
A série de Lucas, completa
Com este capítulo fecha o percurso que começou em agosto. Ficam para trás nove estudos, e uma lacuna que eu ainda quero preencher.
- 04 agoLucas 16
o capítulo em que Jesus fala de dinheiro sem rodeio.
- 11 agoLucas 17
seis lições que não combinam, e por que estão juntas.
- 18 agoLucas 18
seis cenas sobre quem consegue receber.
- 25 agoLucas 19
o capítulo da visitação.
- 01 setLucas 20
o dia das perguntas armadas.
- 08 setLucas 21:1-24
duas moedas e um templo que vai cair.
- 15 setLucas 21:24-38
o céu abalado e o coração carregado.
- 29 setLucas 22:39-71
a noite em que todos falharam, menos um.
- 06 outLucas 23
declarado inocente cinco vezes, e executado assim mesmo.
- 13 outLucas 24
três vezes ele não foi reconhecido. Este aqui.
Fontes
- Lucas 24, capítulo completo, na tradução de João Ferreira de Almeida. Paralelos conferidos em Mateus 28, Marcos 16 e João 20-21.
- Sobre Lucas 24:12, a corrida de Pedro ao sepulcro: ausente em parte dos manuscritos antigos, presente na tradição textual que chega às traduções de uso corrente.
- A continuação direta do capítulo está em Atos dos Apóstolos 1, do mesmo autor, que retoma a ascensão e a ordem de esperar em Jerusalém.
- KARDEC, Allan. A Gênese, cap. XIV, sobre os fluidos; e cap. XV, sobre os milagres do Evangelho, onde examina as aparições de Jesus depois da morte.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, segunda parte, nos capítulos sobre as manifestações visuais e as aparições tangíveis.
- Estudos relacionados: Condensador ectoplásmico, Duplo etérico e O primeiro dia.
Estudo pessoal. Interpretação doutrinária e dado histórico estão separados de propósito: onde eu concluo, está escrito que sou eu.