O capítulo de uma olhada
Jesus segue na subida para Jerusalém. No capítulo anterior ele contou três parábolas sobre coisas perdidas e reencontradas, a ovelha, a moeda e o filho pródigo, respondendo à murmuração dos que achavam ruim ele comer com gente errada. O capítulo 16 vira a câmera e mira em outro lugar: o dinheiro, e o que a gente faz com aquilo que não é nosso.
Duas plateias no mesmo capítulo. O versículo 1 diz “disse também aos seus discípulos”. O versículo 14 informa que os fariseus, que eram avarentos, ouviam tudo isso e zombavam dele. Então a primeira parábola é dita para dentro de casa, e a segunda é a resposta a quem riu. Uma ensina, a outra desmonta.
O fio que amarra tudo: administração. Ninguém neste capítulo é dono de coisa alguma. Há um mordomo cuidando do que é do patrão, há riquezas chamadas de alheias em letra escancarada, há um homem vestido de púrpura que perde tudo numa frase e há uma prestação de contas no fim. Lucas 16 é um capítulo inteiro sobre bens emprestados e prazo de devolução.
1-8 · O administrador astuto, a parábola mais desconfortável
“Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. E ele chamou-o e disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo. E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha.”
Quem era esse homem
O grego é oikonómos, o que administra a casa. Não é empregado de recados: é o procurador de uma grande propriedade, com poder de fechar contratos, cobrar, dar quitação e assinar em nome do dono. Os devedores da parábola não são pobres pedindo esmola, são arrendatários que pagam em produto, azeite e trigo, em quantidade que só faz sentido para produção comercial. As reconstituições de medida variam bastante entre os estudiosos, mas a ordem de grandeza é sempre a mesma: milhares de litros, dívidas do tamanho de anos de trabalho.
O que ele faz
Sabendo que vai ser demitido, chama os devedores um a um e corta as dívidas. Cem medidas de azeite viram cinquenta. Cem de trigo viram oitenta. Ele não pede autorização e não pede propina: está comprando futuro, para que “me recebam em suas casas” quando estiver na rua.
E aí vem o escândalo
“E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.”
O patrão elogia o sujeito que acabou de prejudicá-lo. É o tipo de versículo que faz muita gente pular o parágrafo e ir direto para a próxima parábola. Existem três leituras sérias para esse elogio, e nenhuma delas transforma fraude em virtude:
Repare no que Jesus efetivamente elogia, porque o texto é preciso: ele é chamado de injusto na mesma frase em que é chamado de prudente. Ninguém está dizendo que roubar é bom. Está dito que ele foi rápido, realista, decidido, que enxergou o próprio fim de linha e agiu enquanto ainda tinha caneta na mão.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon
9 · “Fazei amigos com as riquezas da injustiça”
“E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam nos tabernáculos eternos.”
O que costuma passar batido
- “Riquezas da injustiça” não quer dizer dinheiro roubado. A expressão é o mamon da injustiça, o dinheiro deste mundo, aquele que circula dentro de um sistema que produz desigualdade. É uma qualificação do meio, não uma acusação a quem o recebe pelo trabalho.
- “Quando estas vos faltarem” é a chave temporal da frase. Não é hipótese, é certeza. O dinheiro sempre falta no fim, porque o fim de todo mundo é o mesmo.
- Quem recebe nos tabernáculos eternos? No grego, o verbo está no plural sem sujeito explícito. A leitura mais natural é a mais incômoda: recebem-te aqueles a quem tu ajudaste.
10-12 · Fiel no pouco: o teste que ninguém vê
“Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?”
Três versículos curtos e uma das divisões mais úteis do Evangelho inteiro. Jesus separa o que existe em duas categorias, e a categoria em que a gente passa a vida inteira não é a nossa:
| O alheio (o pouco) | O vosso (o muito) |
|---|---|
| dinheiro, patrimônio, negócio | caráter |
| cargo, autoridade, influência | o que você faz com a autoridade |
| tempo desta encarnação | o que ficou aprendido nele |
| o corpo, com prazo e sem reposição | o Espírito que o usou |
| fica aqui, sem exceção | vai junto, sem exceção |
A pergunta do versículo 12 é de arrepiar quando se lê devagar: se você não foi fiel no que era dos outros, quem vai te entregar o que é seu? Ou seja, a matéria é o estágio, e o critério de avaliação é o cuidado com aquilo que não te pertence.
Ver Cuidar do corpo, sobre o instrumento emprestado
13 · Dois senhores
“Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.”
O que a palavra quer dizer
Mamon vem do aramaico e significa, na raiz, aquilo em que se deposita confiança. Não é o nome de um demônio, como a imaginação medieval quis. É a riqueza tratada como garantia, como segurança última, como aquilo que a gente consulta antes de decidir qualquer coisa.
E o verbo é decisivo: douleúein, ser escravo de. Jesus não diz que ninguém pode ter dois senhores, diz que ninguém pode servir aos dois. A questão nunca foi posse. É senhorio: quem manda em quem.
Leitura espírita: O Livro dos Espíritos, na parte das leis morais, sobre a riqueza e a pobreza como provas, e o emprego dos bens confiados. A numeração varia entre edições, confira na sua.
14-15 · Os que zombaram
“E os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas estas coisas, e zombavam dele. E ele disse-lhes: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações, porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.”
Aqui o capítulo muda de temperatura. Não é mais ensino, é confronto. E o alvo é preciso: gente religiosa, estudiosa, respeitada, que ria da parte do dinheiro porque tinha resolvido, lá consigo, que prosperidade era selo de aprovação divina.
O que costuma passar batido
- “Justificar-se diante dos homens” é a construção de uma imagem. Não é mentira deslavada, é edição. É escolher com cuidado o que aparece.
- “O que entre os homens é elevado” não é o pecado escandaloso. É o prestígio, o cargo, a reputação, o assento na frente, a fala bonita, o reconhecimento. Justamente o que ninguém considera problema.
- Eles zombaram. Não argumentaram, não perguntaram, não pediram explicação. Riram. O riso é o jeito mais econômico de não ter que considerar uma ideia.
16-18 · O bloco que parece estar no capítulo errado
“A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei. Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido, adultera também.”
Três versículos que parecem ter sido colados ali por engano, no meio de um capítulo sobre dinheiro. Quase todo comentário os trata como um bloco solto. Eu acho que eles estão exatamente onde deveriam estar, e por um motivo simples.
Contexto que muda a leitura
No debate judaico da época, a escola mais permissiva admitia repúdio por praticamente qualquer motivo, bastando o marido entregar a carta e a mulher sair de casa. Ela saía sem patrimônio, sem sustento e sem lugar social. O versículo 18 não está tratando de amor romântico, está tratando de um contrato que uma das partes podia rasgar sozinha, e de quem ficava com o prejuízo. No capítulo do administrador infiel, isso é o mesmo assunto.
Uma palavra de cuidado, porque este trecho já foi usado para constranger muita gente. A leitura espírita olha o compromisso assumido e a responsabilidade sobre o dano, e não a punição social de quem se separou. União que virou tormento não se santifica pela permanência forçada, e ninguém aqui é juiz de casamento alheio. O que o texto cobra é conduta, não fachada.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXII, Não separeis o que Deus juntou
19-31 · O rico e Lázaro
“Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as chagas.”
Sete detalhes que passam batido
- O rico não tem nome. O mendigo tem. No mundo é o contrário: o rico tem nome gravado na fachada e o pobre é “um mendigo ali na esquina”. Jesus inverte isso na primeira frase. A tradição depois inventou para o rico o apelido de Epulão, que não é nome, vem do latim de banquete: nem para batizá-lo o texto colaborou.
- Lázaro é a forma abreviada de Eleazar, que significa Deus ajudou. É a única parábola em que Jesus dá nome a um personagem, e o nome escolhido é uma afirmação.
- Púrpura e linho finíssimo era roupa de rei e de sumo sacerdote, de custo absurdo. Não é o retrato de um homem confortável, é o de um homem no topo.
- Não há crime nenhum na acusação. O rico não rouba, não bate, não manda expulsar Lázaro. Ele só passa por cima todo santo dia. O que condena o rico é a indiferença, e isso deveria tirar o sono de todo mundo que se acha boa pessoa por não fazer o mal.
- “À porta daquele.” Não era um pobre distante, na outra cidade, no noticiário. Era o obstáculo que ele desviava na saída de casa.
- Ele sabia o nome. Do outro lado, o rico chama Lázaro pelo nome, duas vezes. Nunca foi desconhecimento. Ele sempre soube exatamente quem estava ali.
- Ele não muda. Mesmo em tormento, continua tratando Lázaro como serventia: “manda Lázaro molhar meu dedo”, “manda Lázaro à casa de meu pai”. Fala com Abraão, o superior, e não com Lázaro. A morte não corrigiu absolutamente nada da mentalidade dele.
“No inferno, erguendo os olhos”
A palavra usada no original é hades, o lugar dos mortos, e não gehena, o vale incendiado que virou imagem de castigo. A distinção importa, porque a tradução por “inferno” carrega para dentro do texto uma teologia inteira que o texto não tem. O quadro é de estado, não de endereço.
1. Não é geografia do além. É um quadro moral, contado em linguagem que a plateia entendia. Quem procura aqui a planta baixa do outro mundo está lendo a parábola como manual, e ela nunca foi isso.
2. O abismo é obra dele. A distância entre os dois não é uma parede que Deus construiu por vingança. É a distância moral que aquele Espírito produziu em vida e continua produzindo depois, porque continua o mesmo. Ninguém o proíbe de atravessar: ele não tem com o que atravessar. E como toda distância moral, ela se encurta do único jeito possível, pela transformação de quem a criou. Não há sentença eterna aqui, há um sujeito parado.
3. A morte não santifica ninguém. É o ponto mais útil da parábola inteira para quem estuda. O rico desencarna e permanece exatamente com a mesma cabeça: mesma arrogância, mesma lógica de mando, mesmo desprezo educado. Quem espera virar melhor pelo simples fato de morrer vai se decepcionar com a continuidade.
O fim, que é o melhor pedaço
“Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.”
Para um espírita, este remate tem gosto de recado dado diretamente para nós. A parábola termina dizendo, em alto e bom som, que a comunicação de um morto não converte quem não quer ouvir.
E isso não diminui em nada o valor da prova. A Doutrina nasceu do exame paciente dos fenômenos, e a fé raciocinada é justamente a que encara a razão de frente. O que a frase de Abraão descreve é outra coisa: o fenômeno abre a porta, não empurra ninguém para dentro. Quem já resolveu não mudar assiste ao extraordinário, acha interessante, comenta com os amigos e segue igual. A dificuldade nunca esteve na falta de evidência. Está na falta de vontade de mexer na própria vida, que é bem mais cara do que mexer na própria opinião.
Leitura espírita: KARDEC, O Céu e o Inferno, sobre a natureza e a temporariedade das penas futuras; e O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, sobre o emprego das riquezas
Juntando: por que estes cinco blocos estão no mesmo capítulo
Lidos em sequência, formam um percurso único, e o percurso vai do bolso ao destino:
| Bloco | O que ele nega | O que ele afirma |
|---|---|---|
| O administrador | que boa intenção baste | diligência a serviço do bem |
| Fazer amigos | que dinheiro seja um fim | recurso convertido em vínculo |
| Fiel no pouco | que o pequeno não conte | o mínimo como critério do máximo |
| Dois senhores | que dê para dividir lealdade | uma escolha, feita todo dia |
| Os que zombaram | que reputação seja mérito | o que Deus vê é o que ficou escondido |
| Lei e fidelidade | que compromisso se rasgue por conveniência | responsabilidade sobre o dano causado |
| O rico e Lázaro | que não fazer o mal seja fazer o bem | a omissão como conta a pagar |
Em todos, a mesma estrutura: alguém administra o que não é seu, e o prazo acaba. O mordomo descobre isso na hora em que perde o cargo. O rico descobre na hora em que perde o corpo. O capítulo inteiro é um convite para descobrir antes.
O que este capítulo cobra de mim
Não dá para sair de Lucas 16 com uma frase bonita e nada mais. Ele é prático demais para isso. O que eu tirei, em quatro linhas:
O rico de Lucas 16 não foi condenado por ter. Foi condenado por atravessar a vida inteira passando por cima de um nome que ele sabia de cor.
Fontes
- Lucas 16:1-31, texto base. Vale comparar ao menos duas traduções nos versículos 8, 9 e 16.
- Lucas 15, as três parábolas do perdido, que abrem o mesmo discurso e explicam a plateia.
- Deuteronômio 23:19-20 e Levítico 25:35-37, a proibição de juros ao compatriota, pano de fundo da leitura sobre o desconto das dívidas.
- Deuteronômio 24:1-4, a carta de repúdio, e Mateus 19:3-9, o debate paralelo sobre o divórcio.
- Mateus 6:24, o paralelo de “não podeis servir a Deus e a Mamon”.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon; e cap. XXII, Não separeis o que Deus juntou.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, sobre a natureza, a proporção e a temporariedade das penas futuras.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, leis morais, sobre riqueza e pobreza como provas e sobre o emprego dos bens. Numeração varia entre edições.
- Estudos relacionados aqui: Lucas 17, O filho pródigo, Cuidar do corpo e Duas cobertas.
Citações conforme João Ferreira de Almeida. A leitura espírita está identificada como tal e não se confunde com a exegese histórica do texto, as duas camadas ficam separadas de propósito. As reconstituições de medidas antigas e de práticas comerciais variam entre autores.