Eu achei que era um passe
É verdade e não tem outro jeito de contar. A F., minha prima, vinha falando de um curso havia um tempo. Eu ouvia sem prestar muita atenção, do jeito que a gente ouve as coisas que ainda não são da nossa conta.
Quando enfim fui, fui achando que era outra coisa. Imaginei que passaria lá, tomaria um passe e iria embora. Não fazia a menor ideia de que estava entrando num curso de três anos, com programa, com leitura, com seminário para apresentar, com frequência mínima.
Cheguei perdido. Sem saber onde sentar, sem entender o vocabulário, sem conhecer ninguém, sem a menor noção do que era aquilo. E, olhando de hoje, esse é exatamente o jeito certo de chegar: sem plano, sem defesa e sem opinião formada.
Quem eu era quando entrei
Preciso ser honesto sobre o ponto de partida, senão o resto não faz sentido.
- Eu não orava. Não por rebeldia, por desuso mesmo. Não fazia parte da minha rotina e eu não sentia falta.
- Eu era meio materialista. Não militante, não daqueles que discutem. Só alguém que resolvia a vida no plano prático e não perguntava muito além disso.
- De Jesus eu sabia muito pouco. O básico cultural, o que qualquer pessoa sabe de ouvir falar. Nunca tinha lido um Evangelho inteiro na vida.
- Da Doutrina Espírita eu sabia menos ainda. Praticamente nada, e o pouco que eu achava que sabia estava errado.
O grupo
A primeira surpresa não foi doutrinária, foi humana. Encontrei um grupo maravilhoso, de pessoas incríveis. Gente de origens completamente diferentes, com histórias que eu jamais imaginaria, sentadas na mesma sala às sete e meia da noite de uma quinta-feira, por vontade própria, para estudar.
Não havia disputa, não havia julgamento sobre quem sabia mais, não havia ninguém tentando provar nada a ninguém. Para quem chegava perdido, isso fez toda a diferença. Ninguém me fez sentir burro por não saber. E quem já passou por qualquer ambiente de aprendizado sabe o quanto isso é raro.
Mel
A Mel, monitora da turma, teve um papel importante na minha chegada e no meu desenvolvimento.
Monitor de curso pode fazer o mínimo: seguir o programa, marcar presença, distribuir os temas dos seminários e encerrar no horário. Ela fez muito além. Percebeu quem estava perdido, acompanhou, corrigiu com cuidado, cobrou quando precisava cobrar e abriu porta quando dava para abrir.
A desconstrução e o despertar, ao mesmo tempo
Esta é a parte mais difícil de explicar para quem não passou por isso. As duas coisas aconteceram juntas, e não em sequência.
De um lado, uma desconstrução de quem eu era. Certezas que eu carregava sem examinar começaram a ficar sem chão. O jeito de olhar para dificuldade, para injustiça, para morte, para as pessoas que me irritavam: tudo isso teve que ser revisto, e rever é desconfortável.
Do outro lado, um despertar. À medida que uma coisa caía, outra aparecia no lugar, e a que aparecia fazia mais sentido do que a que tinha caído. Não é que eu tenha perdido chão. É que o chão foi trocado enquanto eu estava em pé nele.
O que mudou de fato no primeiro ano
- Comecei a orar. Sem fórmula decorada, sem obrigação de horário. Mas comecei.
- Comecei a ler o Evangelho. E descobri que era muito mais interessante e muito mais duro do que eu imaginava.
- Passei a olhar para as próprias reações. Perceber irritação, mágoa e vaidade no momento em que aparecem, e não uma semana depois.
- Parei de tratar dificuldade como azar. Causa e efeito mudou a forma de encarar o que dá errado, inclusive o que eu mesmo causei.
- Aprendi a estudar de novo. Preparar seminário, ler antes, organizar o que vou dizer. Isso não estava nos meus planos e virou hábito.
Uma coisa foi puxando a outra
Em algum momento do caminho ela sugeriu que eu fizesse cursos de vida em alta performance, fora do ambiente espírita. Foi uma sugestão simples, dita de passagem, e ela disparou as possibilidades.
Porque é aí que a coisa se junta. Uma linha vinha me ensinando por que viver, e a outra veio ensinando como organizar a vida para conseguir. Sozinhas, as duas ficam capengas: propósito sem método vira intenção, e método sem propósito vira produtividade vazia. Juntas, funcionam.
O que eu diria para quem está chegando perdido
- Não precisa saber nada para começar. Eu não sabia. Ninguém que estava lá sabia, no primeiro dia.
- Não precisa concordar com tudo de cara. A Doutrina pede fé raciocinada, e isso significa que dúvida é bem-vinda. Estranhar faz parte.
- Vá pelo menos algumas vezes antes de decidir. O primeiro dia é o mais confuso de todos, e é o pior momento para julgar.
- Repare nas pessoas. A doutrina você lê em casa. O que não dá para ler é a convivência com gente que está tentando ser melhor de verdade.
- Aceite ser desconstruído. É desconfortável e é o ponto inteiro. Quem entra querendo sair igual sai igual.
Eu entrei achando que era um passe de vinte minutos. Já vai para o terceiro ano, tem um site inteiro publicado como resultado, e a única coisa que eu mudaria é ter chegado antes.
Nota sobre este texto
Escrito algum tempo depois, olhando para trás. O dia de entrada foi 6 de agosto de 2024, no Curso de Educação Mediúnica do I.B.A.C.E.M.A., Casa da Volta do Campo.
Gratidão à F., que falou do curso até eu ir, e à Mel, que me recebeu perdido e não me deixou desistir.