O trecho de uma olhada
Este estudo continua o anterior, Lucas 21:1-24, e começa no versículo 24 de propósito, porque ele é a ponte entre as duas metades: a primeira falava de uma cidade concreta sendo cercada, esta fala de algo muito maior.
O fio que amarra: o mesmo acontecimento produz duas reações opostas. Diante dos sinais, uns desmaiam de terror. E, no versículo seguinte, os discípulos recebem a ordem contrária: levantai as vossas cabeças.
O que vem de Mateus e de Marcos
Aqui as diferenças são particularmente reveladoras, porque mostram o que Lucas acrescenta e, principalmente, o que ele deixa de fora.
| Cena em Lucas 21 | Mateus 24 | Marcos 13 | O que muda |
|---|---|---|---|
| 25-26 Os sinais | v. 29 | vv. 24-25 | os três descrevem o sol, a lua e as estrelas; só Lucas acrescenta a angústia das nações, o bramido do mar e os homens desmaiando, ou seja, o efeito humano |
| 27 O Filho do homem | vv. 30-31 | vv. 26-27 | Mateus fala do “sinal do Filho do homem no céu” e das tribos lamentando; Mateus e Marcos falam de anjos reunindo os escolhidos. Lucas não tem nenhum dos dois |
| 28 Levantai as cabeças | não tem | não tem | só Lucas |
| 29-31 A figueira | vv. 32-33 | vv. 28-29 | Lucas acrescenta “e todas as árvores”, e fala em “o reino de Deus está perto” |
| 32-33 Esta geração | vv. 34-35 | vv. 30-31 | praticamente iguais nos três |
| … O dia e a hora | v. 36 | v. 32 | Lucas não traz esta frase aqui, e esse é o achado do quadro, explicado abaixo |
| 34-36 Vigiai | vv. 42-51 | vv. 33-37 | Mateus usa Noé e o servo vigilante; Marcos, o porteiro. Só Lucas traz a lista: glutonaria, embriaguez, cuidados da vida |
| 37-38 A rotina | não tem | não tem | só Lucas |
Não porque discorde: ele simplesmente já tinha dito a mesma coisa de outro jeito, lá no começo do capítulo, ao mandar não seguir quem aparece dizendo que o tempo está próximo. E volta a dizer no livro seguinte que escreveu, Atos dos Apóstolos, com a frase de que não pertence aos discípulos saber os tempos e as épocas. Lucas é, dos três, o mais consistentemente contrário a marcar data.
24 · A ponte: os tempos dos gentios
“E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.”
O versículo fecha a primeira metade, com a queda e a dispersão, e abre a segunda com uma expressão de prazo: até que os tempos dos gentios se completem. É o gancho. Até aqui, uma cidade. A partir daqui, o mundo inteiro.
Como já ficou dito no estudo anterior, é uma expressão que o próprio texto não define, e que já sustentou muita especulação inútil de quem quis transformá-la em calendário. O que ela afirma com clareza é mais simples e mais útil: existe um tempo, e ele tem fim.
25-26 · Sinais no sol, na lua e nas estrelas
“E haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e sobre a terra angústia das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas. Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto os poderes do céu serão abalados.”
Contexto que muda a leitura
- É linguagem de profeta, e a plateia a conhecia. O sol que escurece, a lua que não dá luz, as estrelas que caem aparecem em Isaías, em Joel, em Ezequiel, sempre para anunciar a queda de um poder, a derrubada de uma ordem. Quem ouvia não pensava em astronomia, pensava em reviravolta.
- O mar, para aquele povo, era imagem do caos. Não navegavam como gregos e fenícios. O mar bramindo é a desordem ameaçando a terra firme.
- Lucas acrescenta o efeito humano, que os outros dois não descrevem: a angústia das nações, a perplexidade, os homens desmaiando de expectativa. Repare: não desmaiam do que aconteceu, desmaiam do que acham que vai acontecer.
E isso liga direto com o estudo anterior: a lei de destruição desfaz o que já não serve, e o que vem depois é regeneração. O céu que abala é a velha ordem saindo do lugar.
Leitura espírita: A Gênese, cap. XVII, Predições do Evangelho, e cap. XVIII, Os tempos são chegados. Ver Lucas 21:1-24, sobre destruição e regeneração
27 · O Filho do homem numa nuvem
“E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória.”
De onde vem a imagem
Direto de Daniel, capítulo 7, na visão em que um como o filho do homem vem com as nuvens do céu, é apresentado ao Ancião de dias e recebe domínio, glória e um reino que não passa. É por isso que a expressão pesa: quem ouvia reconhecia a fonte na hora.
E a nuvem, na linguagem bíblica, não é meteorologia. É o sinal da presença: a coluna de nuvem que guiava o povo no deserto, a nuvem que cobre os discípulos na transfiguração, a nuvem que o recebe quando ele sobe, no início de Atos. Vir numa nuvem é vir revestido de presença divina.
“Filho do homem”, e a pergunta que isso sempre levanta
A expressão soma dois sentidos. Em Ezequiel, “filho do homem” é simplesmente ser humano, mortal. Em Daniel, é aquele a quem é dado o domínio. Jesus usa para si um título que é, ao mesmo tempo, o mais humilde e o mais alto. E ele é o único, nos evangelhos, que usa a expressão para falar de si.
O Livro dos Espíritos responde com duas palavras. Na questão 625, perguntam qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo, e a resposta é: “Vede Jesus.” E a Doutrina o apresenta como o mais puro dos Espíritos que apareceram na Terra.
Repare na precisão, porque é ela que resolve a questão. Para a Terra, ninguém está acima dele: ele é o guia e o modelo do nosso mundo. A Doutrina não diz que ele é Deus, e também não monta uma escala dele comparado a todos os Espíritos de toda a criação. Sobre o que existe além disso, a Codificação não fala, e silêncio da fonte não é o mesmo que afirmar que há alguém acima.
E a vinda, na leitura espírita
A Doutrina não lê a cena como uma descida física sobre as nuvens, e sim como a realidade moral do ensino dele se impondo na transformação da humanidade. E Kardec liga isso a outra promessa, a do Consolador, que ele identifica com o próprio Espiritismo: o ensino que viria para lembrar e explicar o que foi dito.
O Livro dos Espíritos, questão 625; O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI, O Cristo Consolador; e A Gênese, cap. XVII, Predições do Evangelho. Ver também Lucas 21:1-24, sobre quem é Daniel
28 · Levantai as vossas cabeças
“Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima.”
Este versículo só existe em Lucas, e ele inverte tudo o que veio antes. Dois versículos atrás, os homens desmaiam. Aqui, os discípulos recebem ordem de erguer a cabeça. Diante do mesmo acontecimento.
E a palavra escolhida é redenção, que no uso daquele tempo tinha sabor concreto: é o resgate, o preço pago para libertar alguém cativo. O que para uns é o fim do mundo, para outros é o fim do cativeiro.
29-33 · A figueira, esta geração e as palavras que não passam
“Olhai para a figueira, e para todas as árvores; quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão. Assim também vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o reino de Deus está perto.”
A lição da figueira
- A figueira perde as folhas no inverno e brota tarde, quando o frio já passou. Quando aparecem as folhas novas, qualquer camponês sabe que o verão chegou. Não é profecia, é observação de quem vive na terra.
- Lucas acrescenta “e todas as árvores”. Tira a figueira do centro e generaliza a lição: não é um sinal secreto numa árvore específica, é saber ler a estação em qualquer coisa viva.
- E o ensinamento é sobre estação, não sobre data. Ninguém sabe o dia exato em que o verão começa. Mas todo mundo percebe quando ele está perto.
“Não passará esta geração”
“Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo aconteça.”
É um dos versículos mais discutidos do Evangelho, e vale ser honesto com ele. O que se pode dizer com segurança é que a geração que ouviu estas palavras viu a queda de Jerusalém, cerca de quarenta anos depois, cumprindo a primeira parte do discurso. Para a parte cósmica, as leituras se dividem, e quem tenta transformar a frase num cronômetro tropeça nela.
A leitura espírita, que trata o discurso como descrição de transformação e não como calendário, tira a pressão da frase: o que começou ali continua em curso, e cada geração vive a parte dele que lhe cabe.
E a frase que fecha o bloco, e que resume o capítulo
“Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar.”
34-36 · O coração carregado
“E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia. Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de toda a terra. Vigiai, pois, em todo o tempo, orando.”
E aqui está, na minha leitura, o ponto do discurso inteiro. Toda a imagem cósmica desemboca numa lista de três coisas, e nenhuma delas é espetacular:
Repare que a terceira da lista não é pecado. Ninguém é condenado por se preocupar em pagar as contas. Mas ela está ao lado da glutonaria e da embriaguez porque produz o mesmo efeito: o coração pesado demais para perceber o que está acontecendo.
“Como um laço”
A imagem é de armadilha de caçador: o laço que se fecha no animal distraído, que estava olhando para o chão procurando comida. Não pega quem está atento. Pega quem está ocupado demais.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII, sobre a prece. Ver Cuidar do corpo, sobre excesso e descanso
37-38 · A rotina da última semana
“E de dia ensinava no templo, e de noite, saindo, ficava no monte chamado das Oliveiras. E todo o povo ia ter com ele ao templo, de manhã cedo, para o ouvir.”
Dois versículos que só Lucas registra, e que fecham o capítulo com uma cena quase silenciosa depois de todo o estrondo. De dia, o templo. De noite, o monte. De manhã cedo, o povo chegando.
Juntando: as duas metades do capítulo
| Versículos 1-24 | Versículos 24-38 | |
|---|---|---|
| O que cai | o templo e a cidade | a ordem do mundo, o próprio céu |
| O que fica | o gesto da viúva | as palavras dele |
| O erro a evitar | seguir quem diz “o tempo está próximo” | deixar o coração pesado a ponto de não perceber |
| A ordem | “na vossa paciência possuí as vossas almas” | “levantai as vossas cabeças” e “vigiai orando” |
O capítulo 21 inteiro tem uma estrutura só: tudo o que impressiona passa, e o que importa é o estado de quem atravessa. A viúva deu tudo sem ser vista. O discípulo levanta a cabeça quando os outros desmaiam. E o próprio Mestre, na véspera de tudo, continua ensinando de manhã cedo.
O que este trecho cobra de mim
E fica a frase para levar, que é a resposta do capítulo inteiro a todo medo do fim: “passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar.”
Fontes
- Lucas 21:24-38, texto base, na tradução de João Ferreira de Almeida. Continuação de Lucas 21:1-24.
- Mateus 24:29-51 e Marcos 13:24-37, os paralelos do discurso, incluindo a frase sobre o dia e a hora que ninguém sabe (Mateus 24:36 e Marcos 13:32).
- Atos 1:7, também escrito por Lucas, onde a mesma recusa de marcar data aparece em outra forma.
- Daniel 7:13-14, a visão do “um como o filho do homem” que vem com as nuvens; e as imagens proféticas dos sinais cósmicos em Isaías 13:10 e Joel 2:31.
- A nuvem como sinal de presença: Êxodo 13:21, a transfiguração em Lucas 9:34 e Atos 1:9.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 625, sobre Jesus como guia e modelo.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI, O Cristo Consolador; e cap. XXVII, sobre a prece.
- KARDEC, Allan. A Gênese, cap. XVII, Predições do Evangelho; e cap. XVIII, Os tempos são chegados.
- Estudos relacionados aqui: Lucas 21:1-24, Lucas 20, Deus e Cuidar do corpo.
Citações conforme João Ferreira de Almeida. A leitura espírita está identificada como tal e não se confunde com a exegese histórica do texto, as duas camadas ficam separadas de propósito.