← estudo.click
Evangelhos · Lucas 23, capítulo inteiro

Inocente, por cinco bocas diferentes

Lucas monta este capítulo de um jeito que não dá para ignorar: Pilatos declara Jesus inocente três vezes, Herodes não acha nada contra ele, um condenado diz que ele nada fez de mal e o centurião que o viu morrer declara que era justo. A sentença sai mesmo assim. Este é o capítulo em que o Evangelho mostra, sem rodeio, que um sistema inteiro pode saber que está errado e seguir em frente.

56versículos
5declarações de inocência
8cenas que só Lucas tem
6 outestudo de 2026

O capítulo de uma olhada

Continuação direta de Lucas 22:39-71, que terminou com o conselho decidindo que não precisava de mais testemunho. Agora o caso sai da esfera religiosa e entra na política.

1-5diante de Pilatos
6-12diante de Herodes
13-25Barrabás e a sentença
26-31o caminho e as filhas de Jerusalém
32-38a cruz e o perdão
39-43os dois condenados
44-49a morte e o véu rasgado
50-56José de Arimateia e as mulheres
O fio que amarra: Lucas escreve este capítulo como quem monta um processo. Ele empilha absolvições, uma em cima da outra, até ficar impossível alegar engano. Ninguém aqui condena por acreditar na acusação. Condenam sabendo.

A acusação começa com uma mentira documentada

No versículo 2 eles apresentam três acusações a Pilatos: que ele subverte a nação, que proíbe pagar tributo a César e que se diz rei.

A do meio é falsa, e nós temos o registro. Em Lucas 20, esses mesmos homens armaram a pergunta do tributo justamente para pegá-lo nisso, e ele respondeu que se desse a César o que é de César. Eles ouviram a resposta, não conseguiram usá-la, e agora acusam exatamente do contrário do que ele disse.

Não é um mal-entendido. É a mesma gente, o mesmo assunto, poucos dias depois.

E repare na tradução que eles fizeram da acusação. Diante do conselho religioso, a pergunta era se ele era o Cristo. Diante do governador romano, isso virou rei, porque blasfêmia não é crime em Roma, mas rei concorrente é. Souberam trocar a palavra pela palavra que mata.

Dois julgadores, nenhuma condenação (1-12)

Pilatos pergunta, ouve e dá o veredito do versículo 4: não acha culpa nenhuma naquele homem. Quando descobre que Jesus é galileu, manda-o para Herodes, que estava em Jerusalém.

A cena com Herodes só existe em Lucas, e é das mais tristes do Evangelho. Herodes estava contente, porque havia muito queria ver Jesus e esperava ver algum sinal. Faz muitas perguntas. E Jesus não responde nada.

É o único lugar dos quatro evangelhos em que Jesus fica inteiramente em silêncio diante de uma pergunta direta. Diante de Pilatos ele fala. Diante do conselho ele fala. Diante de Herodes, nada.

A diferença é o motivo da pergunta. Herodes não queria entender nem julgar: queria assistir. Para quem transforma o sagrado em espetáculo, não há resposta a dar.

Herodes também não o condena. Veste-o com uma roupa esplêndida, para rir, e devolve. E aí Lucas solta uma frase de uma ironia pesadíssima no versículo 12: naquele mesmo dia Pilatos e Herodes se tornaram amigos, pois antes viviam inimizados.

Comentário meu. Dois homens que não se suportavam ficaram amigos porque acharam um desafeto comum. É uma das observações mais atuais do Evangelho. Muita aliança não nasce de acordo sobre o que se ama, nasce de acordo sobre quem se despreza, e dura exatamente o tempo do desprezo.

A sentença que o povo escolheu (13-25)

Pilatos reúne os chefes e o povo e faz um resumo honesto: eu examinei, não achei culpa, Herodes também não achou, nada que mereça morte foi feito por ele. Propõe castigá-lo e soltá-lo.

A multidão pede Barrabás, que Lucas descreve sem suavizar: estava preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos insiste mais duas vezes e o texto marca a terceira recusa. No fim, o versículo 25 fecha com uma frase terrível: entregou Jesus à vontade deles.

QuemOndeO que diz
Pilatosv. 4não acho culpa alguma neste homem
Pilatosvv. 14-15nem eu nem Herodes achamos coisa alguma
Pilatosv. 22pela terceira vez: que mal fez ele?
O condenado ao ladov. 41este nenhum mal fez
O centuriãov. 47verdadeiramente este homem era justo
Pilatos não é inocentado por isso, é condenado por isso. O homem que mais repetiu que não havia crime é o mesmo que assinou a execução. Saber não basta, e dizer que sabe não basta menos ainda. Ele lavou as mãos no sentido literal do que a expressão veio a significar: fez o errado deixando registrado que discordava.

O caminho, e um aviso dirigido às mulheres (26-31)

Pegam Simão, de Cirene, que vinha do campo, e põem a cruz sobre ele para que a levasse atrás de Jesus. Simão não se ofereceu e não foi consultado. Ele só estava passando.

Atrás vem muita gente, e mulheres que batiam no peito e o lamentavam. E Jesus se vira e diz a frase que só Lucas registra: não choreis por mim, chorai por vós mesmas e por vossos filhos. Vêm dias, ele diz, em que chamarão felizes as estéreis, e pedirão aos montes que caiam sobre eles. E fecha: se ao madeiro verde fazem isto, que será do seco?

Ele está falando da destruição de Jerusalém, o mesmo assunto de Lucas 21:1-24. Nas horas finais, com a cruz nas costas, a preocupação dele não é com o que está acontecendo com ele, é com o que vai acontecer com elas.

E o provérbio do final é duro e claro: se é isto que se faz com a lenha verde, que ainda tem vida, imagine o que o fogo faz com a seca. Se a injustiça chega a este ponto num tempo em que ainda há alguma seiva, o que virá quando não houver nenhuma?

Ver Lucas 21:1-24, sobre o cerco anunciado, e a leitura de destruição, regeneração e reconstrução

A cruz, e a primeira palavra (32-38)

Levam com ele dois malfeitores, e o crucificam no lugar chamado Caveira. E então vem a primeira das três frases que Lucas guarda sozinho: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

Esta frase é a chave doutrinária do capítulo inteiro, e ela diz duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira: o perdão vem antes de qualquer pedido de desculpas. Ninguém ali se arrependeu, ninguém pediu nada. Ele não espera a mudança do outro para perdoar.

A segunda, e esta é a que a Doutrina desenvolve: o motivo alegado é a ignorância. Não é "perdoa porque eles são bons", é "perdoa porque eles não sabem". O mal, na compreensão espírita, é antes de tudo atraso e desconhecimento. Quem compreende não faz. Quem faz, ainda não compreendeu.

Em volta, três zombarias em escada: os chefes zombam, os soldados zombam, e depois um dos crucificados também. A ironia é sempre a mesma: salve-se a si mesmo. A única coisa que ele poderia fazer e não fez.

Nota sobre o texto. A frase do perdão, no início do versículo 34, falta em parte dos manuscritos antigos e está presente em outros. A tradição textual que chega às traduções de uso corrente a traz, e é dela que a literatura espírita trabalha. Registro para quem for conferir em outra edição.

Os dois condenados (39-43)

Esta cena existe só em Lucas, e é uma das mais importantes do Evangelho para quem estuda a Doutrina. Dois homens morrendo da mesma morte, ao lado da mesma pessoa, e reagindo de maneira oposta.

1O primeiro blasfema e exige: se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós. Quer ser tirado da cruz, não mudado. Pede resultado, não transformação.
2O segundo repreende o outro, reconhece a própria culpa ("recebemos o que os nossos atos merecem"), declara a inocência de Jesus e pede apenas para ser lembrado.

Olhe o pedido dele com atenção, porque ele é pequeno de propósito: lembra-te de mim quando entrares no teu reino. Não pede para descer da cruz. Não pede para escapar da pena. Aceita a consequência do que fez e pede só para não ser esquecido.

E a resposta é imediata: hoje estarás comigo no paraíso.

Para a leitura espírita isto é muito preciso. O que mudou de um lado para o outro da cruz não foi a pena, foi o estado interior. O homem continuou morrendo ali, no mesmo horário, do mesmo jeito. O que se alterou na hora foi a condição espiritual com que ele ia chegar do outro lado.

Três coisas que esta cena ensina, e uma que ela não ensina

Ver Perdão, e O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre o perdão das ofensas

A morte, e a última palavra (44-49)

Trevas sobre a terra da hora sexta até a nona. O véu do santuário se rasga pelo meio. E então a frase final, que em Lucas é diferente da dos outros evangelhos: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

EvangelhoÚltima frase na cruzO tom
Mateus e MarcosDeus meu, Deus meu, por que me desamparaste?o grito do abandono
LucasPai, nas tuas mãos entrego o meu espíritoa entrega serena
JoãoEstá consumadoa obra concluída

Não são versões concorrentes de uma frase só: são escolhas de cada autor sobre o que daquela hora precisava ser transmitido. E Lucas, que é o evangelista da misericórdia, fecha o seu Jesus exatamente como o abriu: confiando.

Para a Doutrina, esta frase é quase uma definição. Ele não entrega o corpo, entrega o espírito, e entrega em mãos. Quem entrega continua existindo depois de entregar. A morte aqui não é fim de ninguém: é a devolução do que estava emprestado e a continuação do que é permanente.

O centurião, que era o profissional da execução e tinha visto muita gente morrer, diz: este homem era justo. E a multidão que tinha vindo ver o espetáculo volta para casa batendo no peito. Chegaram para assistir e saíram diferentes.

O homem que não consentiu (50-56)

José de Arimateia aparece com uma apresentação cuidadosa de Lucas: homem bom e justo, membro do conselho, que não tinha concordado com o plano nem com o que fizeram. Ele pede o corpo, baixa da cruz, envolve em um lençol e põe num sepulcro onde ninguém ainda havia sido posto.

Ele estava dentro da instituição que condenou, e não consentiu. Isso é dito em uma linha e vale um estudo inteiro.

Não há registro de discurso dele, de protesto público, de ruptura escandalosa. Há o registro de que não assinou embaixo, e de que, quando ninguém mais queria se aproximar do corpo, foi ele quem foi pedir. A coragem que o Evangelho premia aqui é silenciosa e prática.

E o capítulo termina com as mulheres da Galileia, que acompanharam, viram onde foi posto, voltaram e prepararam os perfumes. Então repousaram no sábado, conforme o mandamento.

É um final discreto e muito humano: o que elas podiam fazer, fizeram; o que não podiam, esperaram para fazer. A fidelidade delas não precisou de nenhum gesto grandioso, só de voltar no dia seguinte, que é o começo do capítulo 24.

O que só Lucas conta

Vale o quadro, porque é ele que dá a cor própria do capítulo. Tudo o que está nesta lista some se você ler a Paixão em Mateus ou Marcos.

VersículosO que éPor que importa
6-12o julgamento diante de Herodeso silêncio diante de quem só quer espetáculo, e a amizade nascida de um desafeto comum
27-31as filhas de Jerusalémele consola quem chora por ele, e aponta para a cidade
34Pai, perdoa-lheso perdão antes do pedido, fundado na ignorância
39-43o diálogo com o condenadoarrependimento sincero muda o estado na hora
46nas tuas mãos entrego o meu espíritoa morte como entrega, não como abandono
47o centurião diz "justo"em Mateus e Marcos ele diz "Filho de Deus"; Lucas escolhe a palavra do tribunal, e fecha o processo
48a multidão batendo no peitoa plateia que vai embora mudada
51José não consentiu no conselhoé possível ser íntegro dentro de uma estrutura que erra

O que a Doutrina lê neste capítulo

O mal é ignorância, e por isso há perdão

"Não sabem o que fazem" é a base de toda a compreensão espírita sobre o ofensor. Quem fere está atrasado na compreensão, e o que ele precisa é de esclarecimento e de tempo, não do nosso revide. Isso não transforma o erro em acerto nem dispensa a reparação, mas tira do ofendido o peso de ter que odiar.

Ver O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre perdoar as ofensas, e cap. XII, sobre amar os inimigos

A sobrevivência do espírito

"Nas tuas mãos entrego o meu espírito" e "hoje estarás comigo" estão no mesmo capítulo e a poucos versículos de distância. Os dois dizem a mesma coisa de ângulos diferentes: a vida não termina na cruz de ninguém, e o encontro marcado para "hoje" pressupõe alguém ainda inteiro para comparecer.

A prova aceita

A zombaria repetida três vezes é sempre a mesma proposta: desça daí. Era possível, e ele não desce. Fecha o arco que começou no Monte das Oliveiras em Lucas 22, com o "não se faça a minha vontade". A prova que a gente escolhe carregar é a única que ensina alguma coisa.

A consciência coletiva não substitui a individual

Ninguém naquele tribunal estava sozinho. Pilatos tinha a multidão, os chefes tinham o conselho, os soldados tinham a ordem. Só José de Arimateia estava sozinho, e foi o único que agiu direito. A responsabilidade é sempre individual, mesmo quando o erro é de todo mundo.

O que eu levo deste capítulo

1Saber não é o bastante Pilatos disse três vezes que não havia crime e assinou mesmo assim. Discordar por dentro e ceder por fora continua sendo ceder.
2Perdoar antes de ser pedido ninguém ali se arrependeu e o perdão veio igual. Esperar o pedido é condicionar a própria paz à atitude do outro.
3O que muda é o rumo, não a conta o condenado reconheceu, pediu pouco e recebeu muito. Mas continuou na cruz: reparação e perdão não são a mesma coisa.
4Dá para não consentir José estava no conselho que errou e não assinou. Nem toda coragem precisa de discurso; às vezes é só ir buscar o corpo quando os outros sumiram.

E a frase que fica de tudo: cinco pessoas disseram que ele era inocente, e nenhuma delas o salvou. Só uma pediu para ser lembrada, e essa saiu ganhando.

Fontes

Estudo pessoal. Interpretação doutrinária e dado histórico estão separados de propósito: onde eu concluo, está escrito que sou eu.

Nada encontrado neste estudo com esse termo.