O capítulo de uma olhada
Jesus continua na subida para Jerusalém, e o capítulo se encerra já na entrada de Jericó, a última parada antes da cidade. É o trecho final da viagem, e o tom muda: não é mais só ensino, é despedida com pressa.
O fio que amarra: em todas as seis cenas alguém está tentando receber alguma coisa. E o capítulo separa, com uma clareza quase cruel, quem consegue de quem não consegue. A viúva consegue. O publicano consegue. As crianças conseguem. O cego consegue. O fariseu não. O rico não. Os apóstolos, que estavam mais perto de todos, também não.
Tem ainda um detalhe de montagem que raramente é notado: os discípulos aparecem duas vezes barrando gente. Repreendem quem trazia as crianças, e mais adiante mandam o cego se calar. Lucas coloca as duas cenas no mesmo capítulo de propósito. Quem está mais perto do Mestre é justamente quem está atrapalhando a fila.
1-8 · A viúva e o juiz: a parábola sobre não desistir
“Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia nem respeitava homem algum. Havia também naquela mesma cidade uma certa viúva, e ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.”
Contexto que muda a leitura
- Uma viúva, ali, é a pessoa mais desprotegida que existe. Sem marido e sem filho homem que a representasse, ela não tinha peso social nem quem falasse por ela. A escolha do personagem não é sentimental, é jurídica: é alguém sem nenhum recurso além da própria insistência.
- O juiz é descrito como o pior possível, e ele mesmo confirma: não teme a Deus nem respeita homem algum. Não há a quem apelar acima dele, e ele não tem vergonha para ser usada contra ele.
- Ela não tem dinheiro para oferecer. O único instrumento dela é voltar. E voltar. E voltar.
O detalhe que quase toda tradução suaviza
Quando o juiz finalmente cede, ele diz que faz justiça para que ela não venha a importuná-lo. O verbo grego usado ali vem do vocabulário do boxe: significa, ao pé da letra, golpear debaixo do olho, deixar alguém roxo. O juiz está dizendo, em linguagem de ringue, que aquela mulher vai acabar com ele de tanto insistir.
Ou seja, a figura não é a de uma senhora resignada pedindo por favor. É a de alguém que encurralou o poderoso pelo cansaço.
O argumento do menor para o maior
A conclusão de Jesus não compara Deus ao juiz, faz o contrário: se até esse sujeito, que não tem temor nem vergonha, acaba cedendo à insistência, quanto mais Deus, que é justo e bom, não fará justiça aos que clamam dia e noite. A parábola funciona por contraste, não por semelhança. Quem lê como semelhança conclui que Deus precisa ser incomodado, e é justamente o oposto.
E o capítulo fecha essa parte com uma pergunta que não é retórica: quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? Depois de uma parábola sobre persistência, a pergunta é praticamente uma cutucada. A dúvida nunca foi se a resposta viria. É se alguém ainda estaria esperando.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII, Pedi e obtereis, sobre a natureza e a eficácia da prece
9-14 · O fariseu e o publicano: a oração que não subiu
“Dois homens subiram ao templo a orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.”
O primeiro problema: tudo o que ele diz é verdade
Esta é a parte que deixa a parábola incômoda. O fariseu não está mentindo. Ele provavelmente não roubava mesmo, não era adúltero mesmo, e a disciplina que ele descreve vai além do que a Lei exigia: o jejum obrigatório era anual, e ele fazia duas vezes por semana; o dízimo era sobre determinados produtos, e ele dava de tudo o que possuía.
Se o critério fosse conduta observável, ele ganharia disparado. E ele desce pior do que entrou. Não é a moral dele que está sendo reprovada, é outra coisa.
Duas palavras que entregam tudo
- "Orava consigo". A construção sugere que a oração dele não tinha destinatário de verdade. Ele começa com "ó Deus" e imediatamente passa a falar de si, e sobretudo a comparar. Toda a prece dele é uma prestação de contas dirigida a uma plateia, ainda que a plateia seja ele mesmo.
- "Nem ainda como este publicano". Ele precisa de alguém abaixo. É esse o mecanismo: a virtude dele não se sustenta sozinha, ela precisa de comparação para existir. Quem mede a própria altura pelo ombro do outro nunca está olhando para cima.
E o outro homem
“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”
Três detalhes importam. Ele fica de longe, não avança para o lugar de honra. Não levanta os olhos, gesto de quem não se acha com direito. E bate no peito, gesto de luto, raro em homens naquela cultura, sinal de dor genuína e não de encenação.
E há uma sutileza no original que se perde na tradução: ele não diz "um pecador", diz algo mais próximo de "o pecador", como se fosse o único do mundo. Ele não está se comparando com ninguém. Enquanto o fariseu olha para os lados, o publicano olha para dentro.
A frase final é a chave de tudo: qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. Não é ameaça, é descrição de mecanismo. Quem se acha pronto para de progredir por falta de motivo.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VII, sobre humildade e orgulho
15-17 · As crianças, e a primeira barreira montada pelos discípulos
“Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais, porque de tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino não entrará nele.”
A cena começa com os discípulos repreendendo quem trazia as crianças. Não por maldade: por protocolo. Criança não tinha estatuto social, não contava para nada, não era interlocutor de mestre nenhum. Eles estavam protegendo a agenda do Mestre daquilo que consideravam irrelevante.
O que "como menino" não quer dizer
A leitura comum trata isso como elogio à inocência, e a Doutrina obriga a corrigir esse ponto. Para o Espiritismo, uma criança não é um ser novo e puro: é um Espírito com passado inteiro, muitas vezes antiquíssimo, num corpo recém-nascido. Inocência de alma, ali, não existe como estado.
E isso conversa diretamente com a cena anterior. O fariseu não conseguiria receber nada, porque chegou apresentando um relatório. A criança recebe porque não tem relatório nenhum.
18-30 · O homem rico: a cena mais triste do capítulo
“E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.”
A resposta que desmonta a pergunta antes de respondê-la
Antes de tratar do assunto, Jesus devolve o adjetivo. E vale reparar no que ele faz ali: recusa para si um atributo que pertence a Deus. É uma das declarações mais claras do Evangelho sobre quem é quem, e ela alinha exatamente com a definição que a Codificação abre no primeiro capítulo: soberanamente bom é atributo divino, não título honorífico.
Ver Deus, na Parte Primeira de O Livro dos Espíritos, sobre os atributos
O homem estava certo, e isso é o problema
Ele pergunta o que fazer. Jesus lista os mandamentos. E ele responde, sem arrogância aparente, que guardou tudo aquilo desde jovem. Provavelmente é verdade. Estamos diante de um homem correto, religioso, que procura o Mestre por iniciativa própria e faz a pergunta certa.
“Ainda te falta uma coisa: vende tudo quanto tens, reparte-o entre os pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me. Mas, ouvindo ele isso, ficou muito triste, porque era muito rico.”
"Ainda te falta uma coisa." Depois de uma vida inteira de cumprimento. E a coisa que falta não é uma virtude a acrescentar, é um desapego a executar. O pedido não é sobre dinheiro em si, é sobre o que está segurando quem.
Note que ele não discute, não se justifica e não vai embora indignado. Ele fica triste. É a reação de quem entendeu perfeitamente e sabe que não vai fazer. Não há vilão nessa cena, e é isso que a torna a mais dura do capítulo.
O camelo e a agulha, sem a lenda
Circula muito a explicação de que existiria em Jerusalém uma porta estreita chamada "olho da agulha", pela qual o camelo passaria de joelhos. Não há base histórica para isso. É uma interpretação medieval que serve para amaciar a frase, e ela some assim que se aceita o óbvio: a imagem é hipérbole proposital, do mesmo tipo da pedra de moinho no capítulo anterior. O maior animal da região e o menor furo conhecido, lado a lado, para dizer uma coisa só: por esforço próprio, não passa.
E é exatamente aí que vem a resposta à pergunta espantada dos que ouviam: as coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. A saída não é o rico se esforçar mais. É a transformação que ele não produz sozinho.
E a promessa que fecha o bloco tem sabor espírita evidente: quem deixa casa, família ou bens pelo Reino recebe muito mais, neste tempo e no tempo que vem. A conta não se encerra numa encarnação, e o balanço não é feito só do outro lado.
Leitura espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon. Ver também Lucas 16
31-34 · O anúncio que ninguém entendeu
“E eles nada compreenderam disto; e esta palavra lhes era encoberta, e não entendiam o que se lhes dizia.”
Jesus chama os doze, diz com todas as letras o que vai acontecer em Jerusalém, com detalhes concretos, e o texto registra três vezes na mesma frase que eles não entenderam nada. Não é falta de informação. É a informação batendo numa expectativa que não a comporta.
Eles esperavam um Messias que subisse a Jerusalém para assumir, não para ser entregue. Quando o anúncio contradiz o que se espera, a mente não guarda: ela não ouve. É o mesmo mecanismo que faz alguém sair de uma conversa lembrando só a parte que já pensava antes.
35-43 · O cego que se recusou a calar
“Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
- "Filho de Davi" é título messiânico, e é a primeira vez no relato que alguém o usa assim, em público, na estrada. Quem grita a identidade de Jesus na cara da multidão é o único que não pode vê-lo.
- A segunda barreira do capítulo. De novo repreendem quem quer chegar. E de novo a barreira vem de quem estava perto e achava que sabia a hora certa das coisas.
- Ele grita mais alto. É a mesma virtude da viúva do começo do capítulo, agora numa única cena e sem parábola: insistir depois de mandarem calar.
E vem a pergunta que Jesus faz, aparentemente desnecessária: que queres que te faça? Ele está diante de um cego, à beira do caminho, pedindo misericórdia. Qualquer um adivinharia o pedido. Mas o homem precisa nomear o que quer:
“Senhor, que eu veja.”
Fecha com o cego seguindo Jesus pelo caminho, glorificando a Deus, e o povo em volta fazendo o mesmo. É o único personagem do capítulo que recebe e sai andando junto. O rico saiu triste, os apóstolos seguiram sem entender, o fariseu voltou para casa igual. O cego é o que muda de vida.
Juntando: seis cenas, um argumento só
| Quem | O que tinha demais | O que reconheceu que faltava | Recebeu? |
|---|---|---|---|
| A viúva | nada, nem direitos | justiça, e não parou de pedir | sim |
| O fariseu | méritos, disciplina, comparação | nada, achava-se completo | não |
| O publicano | nada que pudesse exibir | misericórdia | sim |
| As crianças | nenhuma posição a defender | não precisavam justificar-se | sim |
| O rico | bens e vida correta | entendeu, e não abriu mão | não |
| Os apóstolos | certeza do que ia acontecer | não perceberam que faltava | não |
| O cego | nada, nem a vista | gritou o que queria, por nome | sim |
A regra que atravessa a tabela inteira: recebe quem sabe que está sem. Não é humildade de palavra, é diagnóstico correto da própria situação. Por isso o capítulo é tão duro com gente boa: o obstáculo do fariseu e do rico não é pecado, é suficiência. Quem se considera abastecido não estende a mão, e o que não se pede não se recebe.
O que este capítulo cobra de mim
E fica a pergunta do versículo 41 para levar para casa, que é a mais difícil do capítulo quando se responde com sinceridade: “que queres que te faça?” O cego respondeu em três palavras. A maior parte da gente não sabe responder.
Fontes
- Lucas 18:1-43, texto base, na tradução de João Ferreira de Almeida.
- Mateus 19:13-30 e Marcos 10:13-31, os paralelos das crianças e do homem rico, com pequenas diferenças de detalhe que valem comparar.
- Marcos 10:46-52, o paralelo do cego de Jericó, onde ele tem nome, Bartimeu, e joga fora a capa antes de levantar.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VII, sobre humildade e orgulho; cap. XVI, sobre o emprego das riquezas; e cap. XXVII, Pedi e obtereis, sobre a prece.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, sobre a riqueza e a pobreza como provas, e sobre a criança como Espírito reencarnado. Numeração varia entre edições.
- Sobre a suposta porta "olho da agulha" em Jerusalém: não há registro histórico ou arqueológico que a sustente, e a explicação aparece só muito depois do período do texto.
- Estudos relacionados aqui: Lucas 16, Lucas 17, Deus e Pai Nosso.
Citações conforme João Ferreira de Almeida. A leitura espírita está identificada como tal e não se confunde com a exegese histórica do texto, as duas camadas ficam separadas de propósito.