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Evangelho, reforma íntima

Perdão

Jesus falou de perdão mais do que de quase qualquer outra coisa, e colocou o assunto dentro da única oração que ensinou. Não por sentimentalismo: porque a mágoa é um vínculo que prende duas pessoas ao mesmo ponto do passado, e só quem foi ferido tem a chave para desatar.

70 × 7a conta que Jesus deu
1pedido condicional no Pai Nosso
3perdões: do outro, de si, do passado
dez 2024estudo

O que o perdão não é

Quase toda dificuldade com este tema vem de confundir perdão com outras cinco coisas que ele não é. Vale limpar isso antes de qualquer coisa.

Perdoar não éPerdoar é
dizer que o que foi feito não teve importânciareconhecer o dano com clareza e escolher não cobrá-lo para sempre
esquecerlembrar sem que a lembrança ainda machuque
ter de conviver de novo com quem feriudesejar o bem daquela pessoa, mesmo à distância
aceitar que o dano continueencerrar a dívida sem aceitar a repetição
sentir simpatia por quem feriuuma decisão, tomada mesmo quando o sentimento ainda não acompanha
O ponto que destrava a maioria das pessoas: perdão não é sentimento, é decisão. Ninguém consegue produzir carinho por quem o machucou, e Jesus nunca pediu isso. O que se pede é a renúncia ao direito de cobrar. O sentimento vem depois, com o tempo, e às vezes vem muito depois. A decisão é que precisa vir primeiro.

Setenta vezes sete

Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar, e sugere sete, achando que está sendo generoso. A tradição rabínica falava em três. Ele dobrou e ainda acrescentou uma.

“Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete.”
Mateus 18:22

Quatrocentos e noventa não é uma cota. É a recusa da própria pergunta. Jesus está dizendo que perdão não se contabiliza, porque no instante em que alguém começa a contar, já não está perdoando: está administrando uma dívida.

A parábola que vem em seguida

Logo depois, Jesus conta a história do servo que devia dez mil talentos ao rei, uma quantia absurda, impagável em muitas vidas de trabalho. Ele suplica, e o rei perdoa a dívida inteira. Ao sair, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia cem dinheiros, valor pequeno, e o agarra pelo pescoço exigindo pagamento imediato. Como o outro não tem, manda prendê-lo.

A desproporção é o coração da parábola. Não se trata de comparar ofensas, mas de reconhecer uma coisa incômoda: quem exige rigor absoluto com os outros costuma ser quem mais precisou de indulgência. Todos nós devemos dez mil talentos a alguém.

Mateus 18:21-35

A condição que nós mesmos impomos

Dos sete pedidos do Pai Nosso, apenas um é condicional, e a condição somos nós que estabelecemos: “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Estamos pedindo para ser tratados exatamente na medida em que tratamos.

Mateus reforça imediatamente depois da oração, fora dela, como se quisesse garantir que ninguém passasse batido: “se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará; se, porém, não perdoardes, também vosso Pai não perdoará”.

Como a Doutrina entende essa condição: não se trata de um Deus que retém perdão para punir. Deus é imutável e soberanamente bom, e não muda de disposição conforme o nosso humor. O que acontece é lei de causa e efeito: quem não perdoa permanece preso à situação. Mantém viva a ligação com quem o feriu, alimenta o pensamento naquilo, continua produzindo os efeitos daquela causa e adia a própria libertação.

O perdão não é um favor que desce de cima. É o rompimento de um vínculo que só quem foi ferido pode romper. Deus não perdoa por nós porque não pode: a chave está na nossa mão.

Mateus 6:12, 14-15; KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre o perdão das ofensas

Por que a mágoa prende

O Espiritismo dá a esse assunto uma dimensão que nenhuma leitura apenas psicológica alcança.

O pensamento cria vínculo

O pensamento sustentado estabelece sintonia. Quem alimenta rancor mantém o pensamento permanentemente voltado para quem o feriu, e essa ligação é real, não é figura de linguagem. Enquanto durar, as duas pessoas continuam presas ao mesmo ponto, e o ambiente mental de cada uma alimenta o da outra.

A ofensa atravessa existências

A reencarnação muda inteiramente o tamanho do problema. Vínculos não resolvidos se reencontram. A pessoa que hoje nos fere pode ter sido ferida por nós, e o que não for quitado agora volta a se apresentar depois, em outra circunstância, com os papéis possivelmente trocados.

Isso deixa de ser ameaça e vira oportunidade. Cada situação difícil que aparece na vida de alguém é uma chance de encerrar uma conta antiga. Perdoar hoje é resolver hoje, e não empurrar para uma existência inteira à frente.

O ressentimento marca quem o carrega

O sentimento sustentado imprime no perispírito (corpo astral) o padrão daquilo que se cultiva. É por isso que pessoas amarguradas por décadas envelhecem com o rosto do que carregaram. Guardar mágoa é hospedar alguém dentro de si sem cobrar aluguel, e quem paga a conta é o hospedeiro.

Perdoar a si mesmo

Este é o perdão mais esquecido, e às vezes o mais difícil. Muita gente na casa espírita é generosa, tolerante e paciente com todo mundo, e implacável consigo mesma. Isso não é humildade. Humildade é ter avaliação exata de si, e avaliação exata inclui reconhecer que se errou e que se pode recomeçar.

O critério espírita é simples: a falta cometida na ignorância pesa menos que a cometida com plena consciência, e o esforço sincero de mudança conta a favor sempre. Deus não é contabilista mesquinho. Se você já compreendeu o erro, sente o peso dele e mudou a conduta, o trabalho principal já está feito. O resto é continuar.

Como se perdoa, na prática

Perdão raramente é um instante. Quase sempre é um processo, e ele tem etapas reconhecíveis.

  1. Primeiro
    Nomear o que aconteceu

    Sem minimizar e sem inflar. Fingir que não doeu não é perdão, é adiamento. Reconhecer o tamanho real do dano é o que torna possível abrir mão dele depois.

  2. Depois
    Decidir, antes de sentir

    A decisão de não cobrar mais vem primeiro. O sentimento chega no tempo dele, e às vezes demora anos. Esperar sentir para decidir é esperar para sempre.

  3. Todos os dias
    Orar por quem feriu

    É o recurso mais eficaz que a Doutrina indica, e o mais difícil de começar. No início a prece sai seca e sem vontade, e serve assim mesmo. Quem ora pelo ofensor descobre, depois de algum tempo, que já não consegue odiar alguém por quem reza.

    O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, Amai os vossos inimigos

  4. Quando a lembrança voltar
    Recomeçar sem se culpar por recomeçar

    A mágoa vai voltar, e voltar não significa que o perdão foi falso. Significa que o processo continua. Setenta vezes sete vale também para o mesmo perdão repetido dentro de você.

  5. Ao longo do caminho
    Proteger-se sem endurecer

    Perdoar não obriga a expor-se de novo. Onde houver risco de dano continuado, mantenha a distância necessária e perdoe à distância. Prudência e perdão convivem muito bem.

Os dois exemplos que fecham o assunto

Na cruz

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Lucas 23:34

Ele perdoa durante, não depois. E repare no argumento que usa: não diz que o que estão fazendo é pequeno, diz que eles não sabem. É a chave espírita inteira em cinco palavras. Boa parte do mal que se faz no mundo é feita por ignorância moral, por Espíritos que ainda não compreendem. Compreender isso não desculpa o ato, mas dissolve o ódio contra quem o pratica.

Estêvão

Apedrejado, ele repete o gesto: “Senhor, não lhes imputes este pecado”. É a prova de que o exemplo de Jesus não era exclusividade dele. Podia ser seguido, e foi, por um homem comum, na pior hora possível.

Atos 7:60

Fontes

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