O que o perdão não é
Quase toda dificuldade com este tema vem de confundir perdão com outras cinco coisas que ele não é. Vale limpar isso antes de qualquer coisa.
| Perdoar não é | Perdoar é |
|---|---|
| dizer que o que foi feito não teve importância | reconhecer o dano com clareza e escolher não cobrá-lo para sempre |
| esquecer | lembrar sem que a lembrança ainda machuque |
| ter de conviver de novo com quem feriu | desejar o bem daquela pessoa, mesmo à distância |
| aceitar que o dano continue | encerrar a dívida sem aceitar a repetição |
| sentir simpatia por quem feriu | uma decisão, tomada mesmo quando o sentimento ainda não acompanha |
Setenta vezes sete
Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar, e sugere sete, achando que está sendo generoso. A tradição rabínica falava em três. Ele dobrou e ainda acrescentou uma.
“Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete.”
Mateus 18:22
Quatrocentos e noventa não é uma cota. É a recusa da própria pergunta. Jesus está dizendo que perdão não se contabiliza, porque no instante em que alguém começa a contar, já não está perdoando: está administrando uma dívida.
A parábola que vem em seguida
Logo depois, Jesus conta a história do servo que devia dez mil talentos ao rei, uma quantia absurda, impagável em muitas vidas de trabalho. Ele suplica, e o rei perdoa a dívida inteira. Ao sair, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia cem dinheiros, valor pequeno, e o agarra pelo pescoço exigindo pagamento imediato. Como o outro não tem, manda prendê-lo.
A desproporção é o coração da parábola. Não se trata de comparar ofensas, mas de reconhecer uma coisa incômoda: quem exige rigor absoluto com os outros costuma ser quem mais precisou de indulgência. Todos nós devemos dez mil talentos a alguém.
Mateus 18:21-35
A condição que nós mesmos impomos
Dos sete pedidos do Pai Nosso, apenas um é condicional, e a condição somos nós que estabelecemos: “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Estamos pedindo para ser tratados exatamente na medida em que tratamos.
Mateus reforça imediatamente depois da oração, fora dela, como se quisesse garantir que ninguém passasse batido: “se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará; se, porém, não perdoardes, também vosso Pai não perdoará”.
O perdão não é um favor que desce de cima. É o rompimento de um vínculo que só quem foi ferido pode romper. Deus não perdoa por nós porque não pode: a chave está na nossa mão.
Mateus 6:12, 14-15; KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre o perdão das ofensas
Por que a mágoa prende
O Espiritismo dá a esse assunto uma dimensão que nenhuma leitura apenas psicológica alcança.
O pensamento cria vínculo
O pensamento sustentado estabelece sintonia. Quem alimenta rancor mantém o pensamento permanentemente voltado para quem o feriu, e essa ligação é real, não é figura de linguagem. Enquanto durar, as duas pessoas continuam presas ao mesmo ponto, e o ambiente mental de cada uma alimenta o da outra.
A ofensa atravessa existências
A reencarnação muda inteiramente o tamanho do problema. Vínculos não resolvidos se reencontram. A pessoa que hoje nos fere pode ter sido ferida por nós, e o que não for quitado agora volta a se apresentar depois, em outra circunstância, com os papéis possivelmente trocados.
Isso deixa de ser ameaça e vira oportunidade. Cada situação difícil que aparece na vida de alguém é uma chance de encerrar uma conta antiga. Perdoar hoje é resolver hoje, e não empurrar para uma existência inteira à frente.
O ressentimento marca quem o carrega
O sentimento sustentado imprime no perispírito (corpo astral) o padrão daquilo que se cultiva. É por isso que pessoas amarguradas por décadas envelhecem com o rosto do que carregaram. Guardar mágoa é hospedar alguém dentro de si sem cobrar aluguel, e quem paga a conta é o hospedeiro.
Perdoar a si mesmo
Este é o perdão mais esquecido, e às vezes o mais difícil. Muita gente na casa espírita é generosa, tolerante e paciente com todo mundo, e implacável consigo mesma. Isso não é humildade. Humildade é ter avaliação exata de si, e avaliação exata inclui reconhecer que se errou e que se pode recomeçar.
- Culpa que paralisa não repara nada. Ela apenas consome a energia que faria falta na reparação.
- Arrependimento é diferente de remorso. O arrependimento olha para a frente e muda a conduta. O remorso fica girando no mesmo ponto.
- A reparação vale mais que a lamentação. Onde for possível reparar diretamente, repare. Onde não for, faça o bem a quem estiver ao alcance: a lei não exige o impossível.
- Quem não se perdoa acaba precisando ser perfeito para se aceitar, e essa exigência não cabe em ninguém.
Como se perdoa, na prática
Perdão raramente é um instante. Quase sempre é um processo, e ele tem etapas reconhecíveis.
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Primeiro
Nomear o que aconteceu
Sem minimizar e sem inflar. Fingir que não doeu não é perdão, é adiamento. Reconhecer o tamanho real do dano é o que torna possível abrir mão dele depois.
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Depois
Decidir, antes de sentir
A decisão de não cobrar mais vem primeiro. O sentimento chega no tempo dele, e às vezes demora anos. Esperar sentir para decidir é esperar para sempre.
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Todos os dias
Orar por quem feriu
É o recurso mais eficaz que a Doutrina indica, e o mais difícil de começar. No início a prece sai seca e sem vontade, e serve assim mesmo. Quem ora pelo ofensor descobre, depois de algum tempo, que já não consegue odiar alguém por quem reza.
O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, Amai os vossos inimigos
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Quando a lembrança voltar
Recomeçar sem se culpar por recomeçar
A mágoa vai voltar, e voltar não significa que o perdão foi falso. Significa que o processo continua. Setenta vezes sete vale também para o mesmo perdão repetido dentro de você.
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Ao longo do caminho
Proteger-se sem endurecer
Perdoar não obriga a expor-se de novo. Onde houver risco de dano continuado, mantenha a distância necessária e perdoe à distância. Prudência e perdão convivem muito bem.
Os dois exemplos que fecham o assunto
Na cruz
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Lucas 23:34
Ele perdoa durante, não depois. E repare no argumento que usa: não diz que o que estão fazendo é pequeno, diz que eles não sabem. É a chave espírita inteira em cinco palavras. Boa parte do mal que se faz no mundo é feita por ignorância moral, por Espíritos que ainda não compreendem. Compreender isso não desculpa o ato, mas dissolve o ódio contra quem o pratica.
Estêvão
Apedrejado, ele repete o gesto: “Senhor, não lhes imputes este pecado”. É a prova de que o exemplo de Jesus não era exclusividade dele. Podia ser seguido, e foi, por um homem comum, na pior hora possível.
Atos 7:60
Fontes
- Mateus 6:12, 14-15, o pedido condicional do Pai Nosso.
- Mateus 18:21-35, o setenta vezes sete e a parábola do servo impiedoso.
- Lucas 17:3-4, repreender e perdoar sete vezes ao dia.
- Lucas 23:34 e Atos 7:60, o perdão na hora extrema.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X (perdão das ofensas), cap. XI (amar o próximo) e cap. XII (amai os vossos inimigos).
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, lei de justiça, amor e caridade; e as questões sobre reparação e provas escolhidas.