Gratidão é percepção, não boa educação
Quem recebe aquilo que julga ser devido não tem o que agradecer. Esta é a chave do assunto inteiro. A gratidão só nasce depois de um reconhecimento anterior: aquilo podia não ter acontecido.
Por isso ela é, antes de tudo, um órgão de percepção. Não se trata de dizer obrigado com frequência, e sim de conseguir ver. Os nove leprosos de Lucas 17 receberam a cura no caminho, exatamente como o décimo. A diferença não estava no que receberam, estava em quem reparou no que recebeu.
Lucas 17:11-19. Ver também o estudo de Lucas 17
Ontem: agradecer o que já passou
O tempo mais difícil dos três, porque inclui agradecer coisas que doeram.
Pelo que foi bom
A memória humana é injusta por natureza: ela guarda com muito mais força o que machucou do que o que sustentou. Uma pessoa consegue listar dez ofensas de dez anos atrás com detalhes e não lembrar o nome de quem lhe estendeu a mão no mesmo período. Reconstruir a lista do que deu certo é trabalho, e é trabalho espiritual.
Pelas provas
Aqui está o ponto que só a Doutrina resolve. Se cada Espírito escolhe ou aceita as provas de que precisa, e se a lei de causa e efeito é justa, então as dificuldades que atravessamos não são acidentes nem castigo: são o material com que se constrói o progresso.
Olhando para trás, quase todo mundo consegue identificar o momento mais duro da própria história e reconhecer o que aprendeu ali, e que não teria aprendido de outro jeito. Agradecer a prova não é fingir que ela foi agradável. É reconhecer que ela serviu.
Pelas pessoas
Ninguém chega sozinho a lugar nenhum. Há sempre alguém que abriu uma porta, disse uma frase na hora certa, insistiu quando você desistiu ou simplesmente esteve por perto. Boa parte dessas pessoas nunca soube da importância que teve. A gratidão que não é dita permanece incompleta, e uma mensagem de dois parágrafos ainda alcança quem está vivo.
Hoje: enxergar o que está acontecendo agora
O presente é onde a gratidão encontra a maior concorrência, porque o hoje quase sempre chega misturado com pressa, cansaço e problema por resolver.
O que já está aqui e não é notado
- o corpo funcionando: cada respiração acontece sem que ninguém precise administrá-la;
- ter o que comer hoje, que é literalmente o único pedido material do Pai Nosso;
- as pessoas que ainda estão vivas e ao alcance de um telefonema;
- a própria oportunidade de estar encarnado, que a Doutrina descreve como recurso de progresso e não como castigo;
- o simples fato de ter acesso ao conhecimento que permite compreender tudo isso, coisa que a imensa maioria das gerações anteriores não teve.
O contrário da gratidão tem nome
O oposto de agradecer não é xingar: é reclamar por hábito. A queixa contínua tem duas consequências práticas, e as duas são sérias.
- Ela educa o olhar para o que falta. Quem repete a queixa treina a atenção para localizar defeito, e passa a encontrar defeito com facilidade crescente, em tudo.
- Ela produz sintonia. Pensamento sustentado cria padrão, e padrão atrai companhia compatível, encarnada e desencarnada. Ambiente de queixa é ambiente pesado, e quem vive nele sabe exatamente do que se está falando.
Sobre o mecanismo da sintonia, ver o estudo de Frequência e Vibração
Amanhã: agradecer o que ainda não veio
O terceiro tempo é o menos comentado e o mais transformador. Agradecer o futuro é confiança, e confiança tem nome próprio dentro da Doutrina: é a fé raciocinada.
Não é garantia de que dará certo
Agradecer o amanhã não significa acreditar que nada de difícil vai acontecer. Coisas difíceis vão acontecer. Significa confiar em três coisas que a Doutrina afirma e que independem do que aconteça:
Quem agradece antecipadamente não está tentando forçar um resultado. Está declarando que já aceitou o que vier, porque confia em quem conduz. É o “seja feita a tua vontade” dito com antecedência, e é exatamente por isso que ele aparece no Pai Nosso antes de qualquer pedido pessoal.
Por que Deus não precisa dos nossos agradecimentos
A Doutrina é firme neste ponto e ele precisa ficar claro, senão a gratidão vira bajulação. Deus é a Inteligência Suprema, imutável e soberanamente boa. Ele não precisa de elogio, não é influenciável e não altera decisão por causa de agradecimento.
Então a quem serve agradecer? A quem agradece. A prece de agradecimento é ato de adoração no sentido de reconhecimento, e ela produz efeito em quem a faz: reeduca o olhar, dissolve a soberba, aproxima dos benfeitores espirituais e sustenta a pessoa nas horas em que tudo parece escuro.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 1 a 13 e a lei de adoração; O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII e XXVIII
Como se exercita
- Nomear, não generalizar. “Sou grato por tudo” não muda nada. “Sou grato porque hoje fulano me ouviu quando eu precisava” muda, porque exige lembrar e enxergar.
- Agradecer o pequeno. O grande a gente percebe sozinho. O treino está no ordinário: a água que sai da torneira, o corpo que levantou, o dia que começou de novo.
- Dizer para a pessoa. Gratidão silenciosa é meia gratidão. Falar com quem ajudou fecha o circuito, e quase sempre chega em alguém que não fazia ideia do que representou.
- Agradecer na prece antes de pedir. É a ordem do Pai Nosso, e ela reorganiza quem reza.
- Transformar em serviço. A forma mais completa de agradecer o que se recebeu é passar adiante. Quem foi socorrido e depois socorre alguém fechou o ciclo.
Fontes
- Lucas 17:11-19, os dez leprosos e o único que voltou.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, sobre Deus e seus atributos, a lei de adoração e as provas escolhidas pelo Espírito.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V (Bem-aventurados os aflitos), cap. XXVII e cap. XXVIII.
- XAVIER, Francisco Cândido (Espírito Emmanuel). Pensamento e Vida, sobre o pensamento como força que constrói.