O que aconteceu
Naquela semana eu estava fazendo um curso de duas semanas sobre riqueza e prosperidade, e uma das ideias centrais era esta: para ser próspero é preciso fazer circular. Dinheiro, conhecimento, tempo, ajuda. E uma parte grande dessa circulação chama-se doação.
No dia 27, abri o grupo da casa espírita no WhatsApp e havia um pedido: um casal em situação de rua, passando frio, e quem tivesse cobertas para doar que se manifestasse.
Eu li aquilo com a aula ainda quente na cabeça. Disse para mim mesmo talvez eu consiga levar um cobertor para eles. Passei no mercado querendo achar aqueles cobertores populares, dos baratos, e não encontrei. Encontrei dois bons. Comprei os dois.
E aí vem a parte improvável
Eu não tinha endereço. E olha o tamanho do que eu não sabia:
- não sabia o nome deles;
- não sabia quem eram;
- não sabia o número, o ponto, a esquina;
- a única informação era “estou na frente de um banco na Cavalhada”, e nem o nome do banco estava dito;
- e a Cavalhada é uma avenida enorme, com banco em vários trechos.
Saí do mercado e fui. Direto. Acertei em cheio, de primeira.
O encontro
Cheguei e o casal estava dentro de uma caixa de papelão, enrolado em papelão, dormindo. Eu tive que chamar. Disse “oi, irmão”, e ele acordou assustado.
Falei que tinha trazido duas cobertas para eles.
Ele me perguntou se eu era dos amigos da rua, algum grupo assim. Eu disse que não, que eu era do centro espírita, e que uma pessoa tinha pedido para eu ir até ali.
E ele respondeu na hora:
“A dona Melissa?”
Ela mesma. Ele apertou minha mão, beijou minhas mãos, agradecendo. A companheira acordou, os dois desenrolaram os edredons novos e se cobriram. Eu fui embora.
Avisei no grupo: o casal está quentinho hoje. E veio a resposta que virou o título deste estudo na minha cabeça:
“Tu foste instrumento de Deus.”
O trabalho com eles continua, e há gente da casa buscando encaminhamento e amparo de mais longo prazo para os dois. Uma coberta resolve uma noite. O resto é trabalho.
A coincidência que a Doutrina não chama de coincidência
Um curso sobre prosperidade ensinando que é preciso circular, e no mesmo dia um pedido concreto de doação chegando pelo celular. Isso é o tipo de coisa que a gente chama de coincidência por falta de vocabulário melhor.
O Espiritismo não trabalha com acaso. Tudo obedece a lei, e o acaso é apenas o nome que damos ao que ainda não entendemos. Numa vida em que o Espírito está sendo educado, a oportunidade aparece no exato momento em que a pessoa está preparada para reconhecê-la.
Oportunidade de fazer o bem passa por todo mundo o tempo inteiro. A diferença está em quem está afinado para percebê-la. É o mesmo mecanismo de sintonia, aplicado à ação.
Circular: onde o curso e o Evangelho dizem a mesma coisa
A ideia de que a riqueza precisa circular soa moderna e é antiquíssima. O Evangelho diz a mesma coisa com outras palavras, e a Doutrina explica o porquê.
Os bens são confiados, não são propriedade
A Doutrina é direta: nada do que temos é nosso em definitivo. Somos depositários temporários, e a posse de bens materiais é uma prova como qualquer outra, às vezes mais difícil que a pobreza. A pergunta que a lei faz não é quanto alguém acumulou, é o que fez com o que passou pelas mãos dele.
O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon
Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes
É o capítulo XXVI, e é a formulação evangélica exata da circulação. O que se recebe não foi conquistado sozinho, e por isso não pode parar em quem recebeu. Reter é o que interrompe o fluxo, e não há prosperidade em água parada.
O que a leitura espírita acrescenta ao discurso de prosperidade
- Doar não é técnica de enriquecimento. Quem doa para receber de volta está fazendo troca, não caridade, e a lei conhece a diferença. O bem feito com segunda intenção já cobrou o próprio preço.
- Prosperidade não é sinônimo de dinheiro. Saúde, tempo, capacidade, conhecimento e disposição também circulam. Naquele dia o que circulou foi duas cobertas e uma hora do meu tempo.
- Riqueza não é pecado, retenção é. A Doutrina nunca condenou ter. Condena o apego, a ostentação e a indiferença de quem tem diante de quem não tem.
- O bem que se faz volta, mas não como troco. Volta como transformação de quem fez. Eu voltei para casa diferente naquela noite, e isso é o retorno real.
Como eu achei o casal
Essa é a parte que eu não consigo explicar por meios comuns, e não vou fingir que consigo. Uma avenida longa, nenhum ponto de referência além da palavra “banco”, e eu fui direto.
A Doutrina tem nome para o que provavelmente aconteceu ali, e ele não tem nada de espetacular: intuição. Os Espíritos benfeitores influem nos nossos pensamentos, sugerem, inspiram, aproximam. Quase sempre isso não chega como voz nem como visão. Chega como uma ideia que parece nossa, como um impulso de virar naquela esquina e não na outra.
Foi por isso que o improvável aconteceu depois do mercado, e não antes.
O Livro dos Espíritos, sobre a influência dos Espíritos nos nossos pensamentos e sobre os Espíritos protetores
As duas caridades
Kardec distingue a caridade material da caridade moral, e diz claramente qual é a maior. A material está ao alcance de quem tem. A moral está ao alcance de todos, e por isso ninguém tem desculpa.
| Caridade material | Caridade moral |
|---|---|
| as duas cobertas | o “oi, irmão” |
| resolve o frio de uma noite | devolve a condição de pessoa |
| depende de ter | depende só de querer |
Naquela calçada a segunda foi maior que a primeira, e eu só entendi isso depois. O homem podia ter recebido a coberta de qualquer um, em silêncio, com o pacote deixado no chão. O que fez diferença foi ser chamado de irmão, ser olhado no olho, ser tratado como gente que estava dormindo e não como cenário urbano.
E tem o detalhe que me marcou: quando ele perguntou se eu era de algum grupo e eu disse que alguém tinha pedido para eu ir, ele soube exatamente quem era. Aquele casal não era um caso na lista de alguém. Era gente conhecida, chamada pelo nome, acompanhada. Isso diz mais sobre o trabalho da casa do que qualquer relatório.
A resposta correta ali não é se sentir grande. É lembrar do servo que fez apenas o que devia fazer. Quem sai de uma cena dessas se achando bom levou o pagamento na hora e não vai receber outro.
O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIII, e Lucas 17:7-10. Ver Lucas 17
Instrumento
“Tu foste instrumento de Deus.” É uma frase que pode inflar ou pode ensinar, dependendo de como se entende.
O que ela não significa
Não significa que eu fui escolhido, nem que sou especial, nem que tenho alguma qualidade que outros não têm. Instrumento não é sinônimo de eleito.
O que ela significa
Significa que existia um bem a ser feito e alguém precisava de mãos, pés e um carro. As mãos disponíveis naquele momento eram as minhas. O mérito de um instrumento é estar disponível e afinado, e mais nada. Um martelo não se orgulha da casa.
E significa também que o plano espiritual trabalha assim: não faz por nós o que podemos fazer sozinhos. Ninguém desceu do céu com cobertas. A providência se organizou usando um pedido no WhatsApp, um curso sobre circulação, um homem com dinheiro no bolso e uma prateleira de mercado.
O que fica
- A distância entre “talvez eu consiga” e ir. Eu quase resolvi aquilo com um talvez. O bem que não sai da intenção não aquece ninguém.
- Não achei o barato e comprei o bom. Foi acidente, e virou a lição do dia: a doação boa é aquela que eu usaria.
- O estudo encostou na vida no mesmo dia. Teoria de circulação pela manhã, casal coberto à noite. É assim que o estudo prova que valeu.
- Uma noite quente não resolve uma vida. Continua havendo trabalho, encaminhamento e acompanhamento pela frente. Emergência não é solução, é a ponte até ela.
- E chamar de irmão não é figura de linguagem. Se somos todos filhos do mesmo Pai, aquele homem na caixa de papelão é literalmente meu irmão, e a palavra estava tecnicamente correta.
O casal está quentinho hoje. É pouco perto do que precisa ser feito, e é infinitamente mais do que o nada que eu teria feito se tivesse ficado só com o talvez.
Fontes
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIII (não saiba a vossa mão esquerda o que dá a vossa mão direita), cap. XV (fora da caridade não há salvação), cap. XVI (não se pode servir a Deus e a Mamon) e cap. XXVI (dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes).
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, sobre a influência dos Espíritos nos nossos pensamentos, os Espíritos protetores, a lei do trabalho e a lei de justiça, amor e caridade.
- Lucas 17:7-10, o servo que fez apenas o que devia fazer.
- Estudos relacionados aqui: O avental, Lucas 17 e Frequência e Vibração.
O casal não é identificado neste texto e não foi fotografado. A rua aparece só porque é a parte improvável da história, e é grande o bastante para não localizar ninguém.