Como ler este estudo
Fé raciocinada tem um preço: quando a fonte não define, eu não posso completar por conta própria. Para deixar isso visível, cada afirmação importante daqui para baixo leva um selo:
E a hierarquia das fontes, que também precisa ficar clara
- Kardec é o fundamento doutrinário.
- André Luiz é desenvolvimento e detalhamento de mecanismos, largamente usado no estudo da mediunidade, e não ocupa o mesmo lugar da Codificação.
- O material do curso é interpretação didática dessas fontes, feita para organizar o trabalho da casa.
Antes de continuar: são fenômenos diferentes acontecendo ao mesmo tempo
A maior dificuldade deste assunto é que algumas palavras parecem responder à mesma pergunta, e não respondem. Antes de falar em psicofonia consciente, sonambúlica, incorporação ou desdobramento, é melhor separar cinco coisas. Síntese este mapa é organização minha do que as obras descrevem, montado para não me perder na leitura. Os fatos citados vêm dos capítulos indicados adiante.
1. Quem está produzindo o conteúdo?
Se é outro Espírito transmitindo pensamento ou falando através do médium, estamos no campo da mediunidade. Se é o próprio Espírito do médium, emancipado do corpo, percebendo, vendo ou atuando, estamos no campo do sonambulismo e do desdobramento. Os dois podem acontecer juntos.
2. O médium está desdobrado?
Desdobramento diz respeito ao grau de exteriorização do Espírito do médium em relação ao corpo físico. Isso não responde se ele está consciente ou não. Pode estar pouco desdobrado e consciente. Pode estar muito desdobrado e permanecer lúcido. Desdobramento não é sinônimo de inconsciência.
3. O médium sabe o que está acontecendo?
Aqui a palavra “consciente” precisa ser especificada, porque ela esconde quatro perguntas diferentes:
| A pergunta | O que ela observa |
|---|---|
| O médium está acordado fisicamente? | vigília corporal |
| Ele sabe o que está sendo comunicado? | consciência do conteúdo |
| O Espírito exteriorizado percebe o que acontece? | lucidez espiritual |
| Depois ele consegue recordar? | memória posterior |
As quatro não precisam acompanhar umas às outras. Um médium pode não estar em vigília corporal normal e ainda assim manter lucidez espiritual. Pode estar lúcido durante a experiência e não recordar nada depois. Por isso, aqui, não basta escrever consciente ou inconsciente. É preciso perguntar: consciente de quê?
4. O médium consegue controlar ou interferir?
Controle da vontade é outra variável. Um médium pode perceber com clareza e permitir que a comunicação aconteça. Outro percebe só em parte. E um médium profundamente exteriorizado pode, segundo a descrição de André Luiz, continuar responsável pelo próprio organismo e capaz de interferir. Consciência, controle e memória não são a mesma coisa.
5. Existe outro Espírito usando a expressão do médium?
Esta pergunta separa situações que parecem iguais de fora:
É exatamente no caso C que os relatos de André Luiz começam a fazer sentido, e é ele que costuma ser lido como contradição por quem só tem uma régua.
Um painel, e não uma régua só
É tentador imaginar consciente → semiconsciente → inconsciente como uma escala única. Para ler as obras, é mais seguro imaginar um painel de variáveis que se movem separadamente:
| Variável | Varia de | até |
|---|---|---|
| Exteriorização do médium | pequena | intensa |
| Vigília corporal | presente | reduzida |
| Consciência do conteúdo | alta | baixa |
| Lucidez espiritual | alta | baixa |
| Controle da vontade | alto | baixo |
| Memória posterior | total | nenhuma |
| Liberdade do comunicante | pequena | maior |
Os nomes usados pelos autores destacam uma dessas variáveis e deixam as outras implícitas. É daí que nasce boa parte da confusão.
As configurações, lado a lado
| Situação | Outro Espírito usa a fala? | Desdobramento | Lucidez espiritual | Controle | Memória depois |
|---|---|---|---|---|---|
| Psicofonia consciente | sim | pode existir, leve | alta | alto | alta |
| Psicofonia semiconsciente | sim | variável | parcial | parcial | parcial |
| Psicofonia sonambúlica | sim | intenso | pode existir | pode existir | variável |
| Desdobramento consciente | não | sim | alta | do próprio Espírito | pode ser alta |
| Desdobramento sem memória | não | sim | não se pode afirmar pela ausência de lembrança | variável | nenhuma |
| Sonambulismo lúcido | não | sim, em estado sonambúlico | alta | do próprio Espírito | variável |
| Sonâmbulo médium | sim, e o próprio também percebe | sim | alta | variável | variável |
A última linha é a mais interessante: sonambulismo e mediunidade associados, dois fenômenos na mesma cena. E a penúltima é a que mais engana, porque a expressão “sonambulismo consciente” parece contradição e só quer dizer estado sonambúlico com lucidez do Espírito.
O que esta separação evita
- “Se está desdobrado, está inconsciente.” Não necessariamente.
- “Se não lembra, esteve inconsciente.” Não necessariamente. Memória posterior é outra variável.
- “Se está consciente, não pode haver incorporação.” A descrição de André Luiz não permite afirmar isso.
- “Se está em estado sonambúlico, o Espírito dele está apagado.” Também não.
- “Psicofonia e desdobramento são a mesma coisa.” Não são. Um descreve uma forma de comunicação, o outro uma condição do Espírito do médium. Podem ocorrer separados ou juntos.
1. Quem está produzindo o conteúdo?
2. O Espírito do médium está exteriorizado?
3. O médium percebe o conteúdo da comunicação?
4. O Espírito dele permanece lúcido?
5. Ele mantém controle da própria vontade?
6. Ele recorda a experiência depois?
Só depois disso o nome usado pelo autor começa a ficar compreensível.
O que Kardec descreve
Fonte O médium falante
Em O Livro dos Médiuns, ao tratar dos médiuns, Kardec descreve o médium falante dizendo que ele geralmente se exprime sem ter consciência do que diz, e que frequentemente diz coisas estranhas às próprias ideias, aos próprios conhecimentos e até acima do alcance da própria inteligência. Acrescenta que o Espírito atua sobre os órgãos da palavra como atua sobre a mão dos médiuns escreventes, e que, embora perfeitamente acordados e em estado normal, esses médiuns raramente conservam lembrança do que disseram.
KARDEC, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XIV, item 166. O rol das variedades aparece depois, no cap. XVI, Dos médiuns especiais.
Fonte Os médiuns escreventes
No capítulo dos médiuns escreventes ou psicógrafos, Kardec distingue o mecânico, cuja mão recebe impulso independente da vontade e que não sabe o que escreve; o intuitivo, que transmite o pensamento recebido com a própria elaboração; e o semimecânico, em que há impulso involuntário e, ao mesmo tempo, consciência do que está sendo escrito.
KARDEC, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XV, itens 179 a 181, conforme a numeração corrente.
Fonte E uma observação dele que importa muito aqui
Kardec valoriza a escrita mecânica exatamente porque nela a independência entre o pensamento do médium e o conteúdo produzido fica evidente. Não é um defeito do fenômeno, é uma qualidade de prova.
Vale a precisão: a palavra chega a aparecer em edições e traduções brasileiras de textos kardequianos, mas ao menos nos casos que localizei ela entra como nota do tradutor, e não como termo do original. Por isso a afirmação correta não é “Kardec nunca escreveu essa palavra”, é que ele não a usa como categoria ao classificar os médiuns.
O que André Luiz descreve
Aqui a coisa fica muito mais rica, porque ele nomeia os quadros e descreve o mecanismo de cada um. Basta olhar o índice de Nos Domínios da Mediunidade:
Fonte Psicofonia consciente, capítulo 6
A cena é o socorro a um Espírito que vinha vampirizando uma encarnada havia cinco anos, com a mediunidade de Dona Eugênia. E a descrição do estado dela é minuciosa:
- a médium permanece consciente e desdobrada, afastando-se do corpo alguns centímetros;
- o Espírito comunicante justapõe-se ao equipamento mediúnico e utiliza temporariamente o órgão vocal, apropriando-se do mundo sensório;
- ela se mantém informada de todas as palavras que ele mentaliza, por permanecer imanada a ele pela corrente nervosa;
- e a frase que resume o quadro: Eugênia comanda, firme, as rédeas da própria vontade, como enfermeira que concorda com os caprichos de um doente. O médium personifica a vontade; o comunicante é a ação.
Fonte Psicofonia sonambúlica, capítulo 8
Outro atendimento, outra médium, outro estado. Dona Celina desvencilha-se do corpo físico, como quem se entrega a sono profundo, e a comunicação se dá sem necessidade da ligação da corrente nervosa do cérebro. Ainda assim ela permanece espiritualmente responsável, ao lado do próprio corpo, exercendo controle pela superioridade moral.
Síntese Os dois casos, lado a lado
Posto assim, fica claro que Celina não é uma Eugênia apagada. São configurações diferentes de várias variáveis ao mesmo tempo:
| Eugênia, cap. 6 | Celina, cap. 8 | |
|---|---|---|
| Psicofonia | sim | sim |
| Desdobramento | leve, alguns centímetros | intenso, como em sono profundo |
| Corrente nervosa descrita | sim, e é por ela que ela se informa | não, a comunicação dispensa a ligação |
| Consciência do conteúdo | alta, sabe tudo o que ele mentaliza | diferente, não pela via da corrente nervosa |
| Lucidez espiritual | sim | sim, permanece responsável ao lado do corpo |
| Controle da vontade | muito direto, comanda as rédeas | permanece, e se exerce pela superioridade moral |
| Liberdade do comunicante | menor | maior |
| Nome que André Luiz usa | psicofonia consciente | psicofonia sonambúlica |
Repare que a lucidez espiritual aparece nas duas. O que muda de uma para outra não é o Espírito da médium ter apagado, é a via pela qual ela acompanha e a amplitude da exteriorização.
Fonte A advertência que vem junto
No mesmo capítulo, André Luiz adverte que a psicofonia inconsciente, quando o médium não dispõe de suficiente defesa moral, pode conduzir à possessão, que ele qualifica como sempre nociva. A condição importa: não é a inconsciência sozinha que produz o quadro, é ela somada à falta de amparo moral de quem serve de instrumento. E não é coincidência que o capítulo seguinte ao da psicofonia sonambúlica se chame justamente Possessão.
Fonte A palavra incorporação, e o ponto decisivo
Em Mecanismos da Mediunidade, André Luiz emprega o termo incorporação expressamente, ao lado da psicografia, das inspirações e das premonições, e fala em incorporação em graus diversos de consciência.
incorporação é o fenômeno. A consciência é uma variável dele.
Não é “incorporação é um grau”. É incorporação acontecendo em graus diversos de consciência, que é outra coisa.
Fonte E “inconsciente” tem mais de um sentido
Ainda em André Luiz, mesmo o médium em situação de amnésia cerebral não fica absolutamente inconsciente no plano espiritual, nem se transforma num autômato perfeito. Ou seja, a palavra inconsciente serve para pelo menos dois níveis distintos: a consciência cerebral, com a memória posterior, e a consciência do Espírito.
O que se pode juntar sem inventar
Síntese Desdobramento não implica inconsciência
Isso agora está firme, e vem direto dos dois capítulos. No capítulo 6 a médium está desdobrada e consciente, com todas as letras. No capítulo 8 o desdobramento é muito mais amplo e o quadro é outro. Somando aos capítulos de Mecanismos da Mediunidade sobre desdobramento, em que o Espírito temporariamente afastado mantém atividade mental e permanece ligado ao organismo, a conclusão é segura: afastar-se do corpo e apagar a consciência são coisas independentes.
Hipótese pelo contexto das obras, é possível que a expressão “desdobramento total”, empregada em aula, esteja se referindo a uma exteriorização muito ampla do corpo espiritual, e não à ruptura do vínculo com o corpo físico. Isso é tentativa minha de traduzir o vocabulário da aula, e não algo que eu tenha encontrado escrito assim.
Síntese A distinção de André Luiz é técnica, não abstrata
Entre o capítulo 6 e o capítulo 8, o que muda não é um “grau de domínio” genérico. O que muda é a ligação da corrente nervosa e a amplitude do afastamento do corpo espiritual. Na consciente, a corrente nervosa mantém a médium informada de tudo. Na sonambúlica, a comunicação dispensa essa ligação.
Síntese “Consciente” quer dizer coisas diferentes em cada fonte
| Onde | O que “consciente” significa ali |
|---|---|
| Kardec, médium falante | o médium está acordado e em estado normal, mas em geral não tem consciência do conteúdo e raramente guarda lembrança |
| Kardec, médium semimecânico | há impulso involuntário na mão e, ao mesmo tempo, consciência do que está sendo escrito |
| André Luiz, psicofonia consciente | a médium está desdobrada, informada de tudo pela corrente nervosa e no comando da própria vontade |
| Uso corrente nas casas | o médium lembra depois, ou percebe enquanto acontece |
Quatro usos que não coincidem. Por isso duas pessoas conseguem discutir a noite inteira dizendo “consciente” e falando de coisas diferentes.
Onde eu tinha ido longe demais
A versão anterior deste estudo montava um modelo bonito e arrumado: psicofonia e psicografia seriam canais, incorporação seria grau, e as classificações de Kardec e do uso brasileiro se correspondiam numa tabela. Boa parte daquilo era construção minha, apresentada com cara de coisa estabelecida. Recuo aqui, item por item, porque estudo que não se corrige vira propaganda.
| O que eu afirmava | Status correto |
|---|---|
| “Incorporação é grau, não fenômeno” | Hipótese e provavelmente errada: André Luiz fala em incorporação com graus diversos de consciência |
| “A psicografia mecânica é incorporação pela mão” | Hipótese minha. Kardec compara as duas ações, e não tira essa conclusão |
| “Psicofonia consciente não é incorporação” | Hipótese frágil, diante de incorporação em graus diversos de consciência |
| “Mecânico = inconsciente, semimecânico = semiconsciente, intuitivo = consciente” | no máximo Síntese por analogia. As classificações não nasceram como a mesma tabela |
| “Quem apaga não tem nada a oferecer ao exame” | errado, e retirado. Kardec valoriza a escrita mecânica justamente pela independência que ela evidencia |
A pergunta que fica, e o caminho para respondê-la
Quando uma psicofonia é chamada de incorporação, e por quê?
Essa é a formulação honesta hoje. Não afirma que psicofonia é incorporação, nem que não é. Pergunta pela fronteira, que é justamente o que as fontes ainda não me deram por escrito.
Há um indício de que os termos não são intercambiáveis para André Luiz: em Mecanismos da Mediunidade, ao tratar dos fenômenos cristãos primitivos, ele menciona fatos de psicofonia e, logo adiante, descreve Ágabo como alguém que incorpora um Espírito benfeitor. Hipótese se ele escolhe palavras diferentes em contextos próximos, provavelmente elas não dizem exatamente a mesma coisa.
O plano de leitura
- Nos Domínios da Mediunidade, cap. 6 (psicofonia consciente), cap. 8 (psicofonia sonambúlica) e cap. 11 (desdobramento em serviço), lidos lado a lado.
- O Livro dos Médiuns, item 166 (médium falante) e itens 179 a 181 (mecânico, intuitivo, semimecânico), comparados linha a linha com os capítulos acima.
- Mecanismos da Mediunidade, os trechos em que a palavra incorporação aparece, para verificar em que contextos ela é usada e em quais ele prefere psicofonia.
O que já dá para levar para a prática
- Fonte O médium consciente não é um médium de segunda categoria. A psicofonia consciente tem capítulo próprio e é descrita com a médium no comando da própria vontade.
- Fonte Perder a consciência não é meta. A psicofonia inconsciente, em quem não dispõe de suficiente defesa moral, é apontada como caminho que pode conduzir à possessão.
- Fonte Desdobramento não é apagar. Estar exteriorizado e estar lúcido convivem, e estão descritos convivendo.
- Fonte A escrita mecânica tem valor de prova, pela independência que evidencia entre o médium e o conteúdo.
- Síntese Antes de discutir o nome, pergunte a obra. Quase toda divergência sobre esses termos se dissolve quando cada um diz onde leu.
De onde veio esta pesquisa
Registro o caminho porque ele explica o formato do estudo.
Começou em aula, quando apareceu a associação direta entre psicofonia e incorporação, como se uma fosse o nome da outra. Perguntei o que me incomodava: e a psicografia mecânica, então? A mão do médium se move sem ele querer, ele não sabe o que está sendo escrito. Isso não é domínio do corpo também? A resposta foi que incorporação é da psicofonia, e essa é a convenção adotada no curso.
Meses depois, ouvi que um médium podia estar desdobrado, consciente, e ainda assim em incorporação. Achei impossível. Era o capítulo 6.
Fontes
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XIV, item 166, médiuns falantes; cap. XV, itens 179 a 181, médiuns escreventes mecânicos, intuitivos e semimecânicos; cap. XVI, rol dos médiuns especiais. A numeração varia entre edições.
- ANDRÉ LUIZ (pelo médium Francisco Cândido Xavier). Nos Domínios da Mediunidade, cap. 6, Psicofonia consciente; cap. 7, Socorro espiritual; cap. 8, Psicofonia sonambúlica; cap. 9, Possessão; cap. 11, Desdobramento em serviço.
- ANDRÉ LUIZ. Mecanismos da Mediunidade: emprego do termo incorporação, incorporação em graus diversos de consciência, o capítulo sobre desdobramento e a observação sobre a amnésia cerebral que não faz do médium um autômato.
- Estudos relacionados aqui: O condensador ectoplásmico, Psicofonia e pneumatofonia e Duplo etérico.
Onde a afirmação é minha, está marcada como síntese ou hipótese. Onde é da obra, está o capítulo ou o item para conferência. Trechos citados aparecem em paráfrase fiel ao sentido, e a numeração de itens e capítulos pode variar conforme a edição.