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Espiritismo · mediunidade

Quando uma psicofonia é chamada de incorporação?

Esta pergunta começou como outra, mais simples, e ficou melhor no caminho. Aqui eu coloco lado a lado o que Kardec descreve no médium falante e o que André Luiz descreve na psicofonia consciente e na sonambúlica, sem completar o que as obras não completaram. Cada afirmação importante vem marcada com a sua origem.

166o item de Kardec sobre o médium falante
6 e 8os capítulos das duas psicofonias
3selos de origem da afirmação
1pergunta que fica em aberto de propósito

Como ler este estudo

Fé raciocinada tem um preço: quando a fonte não define, eu não posso completar por conta própria. Para deixar isso visível, cada afirmação importante daqui para baixo leva um selo:

Fonte está dito na obra, com capítulo ou item para conferir.
Síntese é a junção de duas ou mais afirmações das obras, feita por mim.
Hipótese é conclusão minha, ainda sem confirmação nas obras.

E a hierarquia das fontes, que também precisa ficar clara

Essa hierarquia evita a discussão inútil por semântica. A pergunta deixa de ser “quem está certo” e passa a ser “em qual obra estamos fundamentando esta definição?”

Antes de continuar: são fenômenos diferentes acontecendo ao mesmo tempo

A maior dificuldade deste assunto é que algumas palavras parecem responder à mesma pergunta, e não respondem. Antes de falar em psicofonia consciente, sonambúlica, incorporação ou desdobramento, é melhor separar cinco coisas. Síntese este mapa é organização minha do que as obras descrevem, montado para não me perder na leitura. Os fatos citados vêm dos capítulos indicados adiante.

1. Quem está produzindo o conteúdo?

Se é outro Espírito transmitindo pensamento ou falando através do médium, estamos no campo da mediunidade. Se é o próprio Espírito do médium, emancipado do corpo, percebendo, vendo ou atuando, estamos no campo do sonambulismo e do desdobramento. Os dois podem acontecer juntos.

2. O médium está desdobrado?

Desdobramento diz respeito ao grau de exteriorização do Espírito do médium em relação ao corpo físico. Isso não responde se ele está consciente ou não. Pode estar pouco desdobrado e consciente. Pode estar muito desdobrado e permanecer lúcido. Desdobramento não é sinônimo de inconsciência.

3. O médium sabe o que está acontecendo?

Aqui a palavra “consciente” precisa ser especificada, porque ela esconde quatro perguntas diferentes:

A perguntaO que ela observa
O médium está acordado fisicamente?vigília corporal
Ele sabe o que está sendo comunicado?consciência do conteúdo
O Espírito exteriorizado percebe o que acontece?lucidez espiritual
Depois ele consegue recordar?memória posterior

As quatro não precisam acompanhar umas às outras. Um médium pode não estar em vigília corporal normal e ainda assim manter lucidez espiritual. Pode estar lúcido durante a experiência e não recordar nada depois. Por isso, aqui, não basta escrever consciente ou inconsciente. É preciso perguntar: consciente de quê?

4. O médium consegue controlar ou interferir?

Controle da vontade é outra variável. Um médium pode perceber com clareza e permitir que a comunicação aconteça. Outro percebe só em parte. E um médium profundamente exteriorizado pode, segundo a descrição de André Luiz, continuar responsável pelo próprio organismo e capaz de interferir. Consciência, controle e memória não são a mesma coisa.

5. Existe outro Espírito usando a expressão do médium?

Esta pergunta separa situações que parecem iguais de fora:

ADesdobramento sem comunicação o médium se exterioriza, percebe o ambiente espiritual e volta. Ninguém usa a fala dele. Há desdobramento, não há psicofonia.
BPsicofonia com pouco desdobramento outro Espírito comunica pela fala, e o médium permanece muito ligado ao organismo, acompanhando o conteúdo.
CPsicofonia com desdobramento outro Espírito comunica pelo organismo enquanto o médium está exteriorizado. São dois fenômenos ao mesmo tempo.

É exatamente no caso C que os relatos de André Luiz começam a fazer sentido, e é ele que costuma ser lido como contradição por quem só tem uma régua.

Um painel, e não uma régua só

É tentador imaginar consciente → semiconsciente → inconsciente como uma escala única. Para ler as obras, é mais seguro imaginar um painel de variáveis que se movem separadamente:

VariávelVaria deaté
Exteriorização do médiumpequenaintensa
Vigília corporalpresentereduzida
Consciência do conteúdoaltabaixa
Lucidez espiritualaltabaixa
Controle da vontadealtobaixo
Memória posteriortotalnenhuma
Liberdade do comunicantepequenamaior

Os nomes usados pelos autores destacam uma dessas variáveis e deixam as outras implícitas. É daí que nasce boa parte da confusão.

A. Desdobramento sem comunicação o médium se exterioriza e percebe. Ninguém usa a fala dele. corpo vínculo mantido médium Espírito exteriorizado B. Psicofonia consciente exteriorização leve, e ele acompanha tudo pela corrente nervosa. corpo médium alguns centímetros comunicante fala C. Psicofonia sonambúlica exteriorização ampla, sem depender da corrente nervosa. corpo comunicante vínculo mantido, e ela permanece responsável médium fala D. Sonambulismo lúcido o próprio Espírito percebe. O conteúdo não vem de comunicante. corpo médium percebe corpo em estado sonambúlico corpo físico Espírito do médium Espírito comunicante vínculo com o corpo fala pelo aparelho do médium
Quatro configurações. Repare que a fala só aparece em B e C, e o desdobramento aparece nas quatro.

As configurações, lado a lado

SituaçãoOutro Espírito usa a fala?Desdobramento Lucidez espiritualControleMemória depois
Psicofonia conscientesimpode existir, levealtaaltoalta
Psicofonia semiconscientesimvariávelparcialparcialparcial
Psicofonia sonambúlicasimintensopode existirpode existirvariável
Desdobramento conscientenãosimaltado próprio Espíritopode ser alta
Desdobramento sem memórianãosimnão se pode afirmar pela ausência de lembrançavariávelnenhuma
Sonambulismo lúcidonãosim, em estado sonambúlicoaltado próprio Espíritovariável
Sonâmbulo médiumsim, e o próprio também percebesimaltavariávelvariável

A última linha é a mais interessante: sonambulismo e mediunidade associados, dois fenômenos na mesma cena. E a penúltima é a que mais engana, porque a expressão “sonambulismo consciente” parece contradição e só quer dizer estado sonambúlico com lucidez do Espírito.

O que esta separação evita

As seis perguntas para levar no resto do estudo. Sempre que aparecerem as palavras consciente, semiconsciente, inconsciente, sonambúlico ou desdobrado:

1. Quem está produzindo o conteúdo?
2. O Espírito do médium está exteriorizado?
3. O médium percebe o conteúdo da comunicação?
4. O Espírito dele permanece lúcido?
5. Ele mantém controle da própria vontade?
6. Ele recorda a experiência depois?

Só depois disso o nome usado pelo autor começa a ficar compreensível.

O que Kardec descreve

Fonte O médium falante

Em O Livro dos Médiuns, ao tratar dos médiuns, Kardec descreve o médium falante dizendo que ele geralmente se exprime sem ter consciência do que diz, e que frequentemente diz coisas estranhas às próprias ideias, aos próprios conhecimentos e até acima do alcance da própria inteligência. Acrescenta que o Espírito atua sobre os órgãos da palavra como atua sobre a mão dos médiuns escreventes, e que, embora perfeitamente acordados e em estado normal, esses médiuns raramente conservam lembrança do que disseram.

KARDEC, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XIV, item 166. O rol das variedades aparece depois, no cap. XVI, Dos médiuns especiais.

Fonte Os médiuns escreventes

No capítulo dos médiuns escreventes ou psicógrafos, Kardec distingue o mecânico, cuja mão recebe impulso independente da vontade e que não sabe o que escreve; o intuitivo, que transmite o pensamento recebido com a própria elaboração; e o semimecânico, em que há impulso involuntário e, ao mesmo tempo, consciência do que está sendo escrito.

KARDEC, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XV, itens 179 a 181, conforme a numeração corrente.

Fonte E uma observação dele que importa muito aqui

Kardec valoriza a escrita mecânica exatamente porque nela a independência entre o pensamento do médium e o conteúdo produzido fica evidente. Não é um defeito do fenômeno, é uma qualidade de prova.

E o que Kardec não faz: nesse tratamento dos médiuns falantes e dos escreventes, ele não estabelece “incorporação” como categoria técnica, e não conclui, a partir da comparação entre a fala e a mão, que uma coisa seja a outra. A comparação é dele. A conclusão seria nossa.

Vale a precisão: a palavra chega a aparecer em edições e traduções brasileiras de textos kardequianos, mas ao menos nos casos que localizei ela entra como nota do tradutor, e não como termo do original. Por isso a afirmação correta não é “Kardec nunca escreveu essa palavra”, é que ele não a usa como categoria ao classificar os médiuns.

O que André Luiz descreve

Aqui a coisa fica muito mais rica, porque ele nomeia os quadros e descreve o mecanismo de cada um. Basta olhar o índice de Nos Domínios da Mediunidade:

cap. 6Psicofonia consciente
cap. 7Socorro espiritual
cap. 8Psicofonia sonambúlica
cap. 9Possessão
cap. 11Desdobramento em serviço

Fonte Psicofonia consciente, capítulo 6

A cena é o socorro a um Espírito que vinha vampirizando uma encarnada havia cinco anos, com a mediunidade de Dona Eugênia. E a descrição do estado dela é minuciosa:

Fonte Psicofonia sonambúlica, capítulo 8

Outro atendimento, outra médium, outro estado. Dona Celina desvencilha-se do corpo físico, como quem se entrega a sono profundo, e a comunicação se dá sem necessidade da ligação da corrente nervosa do cérebro. Ainda assim ela permanece espiritualmente responsável, ao lado do próprio corpo, exercendo controle pela superioridade moral.

Síntese Os dois casos, lado a lado

Posto assim, fica claro que Celina não é uma Eugênia apagada. São configurações diferentes de várias variáveis ao mesmo tempo:

 Eugênia, cap. 6Celina, cap. 8
Psicofoniasimsim
Desdobramentoleve, alguns centímetrosintenso, como em sono profundo
Corrente nervosa descritasim, e é por ela que ela se informanão, a comunicação dispensa a ligação
Consciência do conteúdoalta, sabe tudo o que ele mentalizadiferente, não pela via da corrente nervosa
Lucidez espiritualsimsim, permanece responsável ao lado do corpo
Controle da vontademuito direto, comanda as rédeaspermanece, e se exerce pela superioridade moral
Liberdade do comunicantemenormaior
Nome que André Luiz usapsicofonia conscientepsicofonia sonambúlica

Repare que a lucidez espiritual aparece nas duas. O que muda de uma para outra não é o Espírito da médium ter apagado, é a via pela qual ela acompanha e a amplitude da exteriorização.

Fonte A advertência que vem junto

No mesmo capítulo, André Luiz adverte que a psicofonia inconsciente, quando o médium não dispõe de suficiente defesa moral, pode conduzir à possessão, que ele qualifica como sempre nociva. A condição importa: não é a inconsciência sozinha que produz o quadro, é ela somada à falta de amparo moral de quem serve de instrumento. E não é coincidência que o capítulo seguinte ao da psicofonia sonambúlica se chame justamente Possessão.

Fonte A palavra incorporação, e o ponto decisivo

Em Mecanismos da Mediunidade, André Luiz emprega o termo incorporação expressamente, ao lado da psicografia, das inspirações e das premonições, e fala em incorporação em graus diversos de consciência.

Repare na forma lógica disso, porque ela é diferente do que eu tinha escrito antes:

incorporação é o fenômeno. A consciência é uma variável dele.

Não é “incorporação é um grau”. É incorporação acontecendo em graus diversos de consciência, que é outra coisa.

Fonte E “inconsciente” tem mais de um sentido

Ainda em André Luiz, mesmo o médium em situação de amnésia cerebral não fica absolutamente inconsciente no plano espiritual, nem se transforma num autômato perfeito. Ou seja, a palavra inconsciente serve para pelo menos dois níveis distintos: a consciência cerebral, com a memória posterior, e a consciência do Espírito.

O que se pode juntar sem inventar

Síntese Desdobramento não implica inconsciência

Isso agora está firme, e vem direto dos dois capítulos. No capítulo 6 a médium está desdobrada e consciente, com todas as letras. No capítulo 8 o desdobramento é muito mais amplo e o quadro é outro. Somando aos capítulos de Mecanismos da Mediunidade sobre desdobramento, em que o Espírito temporariamente afastado mantém atividade mental e permanece ligado ao organismo, a conclusão é segura: afastar-se do corpo e apagar a consciência são coisas independentes.

Isso resolve, com fonte, a frase que eu ouvi em aula e achei impossível: médium desdobrado, consciente, e ainda assim em incorporação. É a descrição do capítulo 6, quase palavra por palavra.

Hipótese pelo contexto das obras, é possível que a expressão “desdobramento total”, empregada em aula, esteja se referindo a uma exteriorização muito ampla do corpo espiritual, e não à ruptura do vínculo com o corpo físico. Isso é tentativa minha de traduzir o vocabulário da aula, e não algo que eu tenha encontrado escrito assim.

Síntese A distinção de André Luiz é técnica, não abstrata

Entre o capítulo 6 e o capítulo 8, o que muda não é um “grau de domínio” genérico. O que muda é a ligação da corrente nervosa e a amplitude do afastamento do corpo espiritual. Na consciente, a corrente nervosa mantém a médium informada de tudo. Na sonambúlica, a comunicação dispensa essa ligação.

Síntese “Consciente” quer dizer coisas diferentes em cada fonte

OndeO que “consciente” significa ali
Kardec, médium falanteo médium está acordado e em estado normal, mas em geral não tem consciência do conteúdo e raramente guarda lembrança
Kardec, médium semimecânicohá impulso involuntário na mão e, ao mesmo tempo, consciência do que está sendo escrito
André Luiz, psicofonia conscientea médium está desdobrada, informada de tudo pela corrente nervosa e no comando da própria vontade
Uso corrente nas casaso médium lembra depois, ou percebe enquanto acontece

Quatro usos que não coincidem. Por isso duas pessoas conseguem discutir a noite inteira dizendo “consciente” e falando de coisas diferentes.

Onde eu tinha ido longe demais

A versão anterior deste estudo montava um modelo bonito e arrumado: psicofonia e psicografia seriam canais, incorporação seria grau, e as classificações de Kardec e do uso brasileiro se correspondiam numa tabela. Boa parte daquilo era construção minha, apresentada com cara de coisa estabelecida. Recuo aqui, item por item, porque estudo que não se corrige vira propaganda.

O que eu afirmavaStatus correto
“Incorporação é grau, não fenômeno” Hipótese e provavelmente errada: André Luiz fala em incorporação com graus diversos de consciência
“A psicografia mecânica é incorporação pela mão” Hipótese minha. Kardec compara as duas ações, e não tira essa conclusão
“Psicofonia consciente não é incorporação” Hipótese frágil, diante de incorporação em graus diversos de consciência
“Mecânico = inconsciente, semimecânico = semiconsciente, intuitivo = consciente” no máximo Síntese por analogia. As classificações não nasceram como a mesma tabela
“Quem apaga não tem nada a oferecer ao exame” errado, e retirado. Kardec valoriza a escrita mecânica justamente pela independência que ela evidencia
Comentário meu. O erro aqui é profissional, e eu reconheço o cheiro dele: encontrei um monte de comportamento aparentemente inconsistente e construí uma abstração para explicar tudo. Funciona muito bem em sistema que eu escrevo. Não funciona em Doutrina, onde as definições não são minhas. Ficou arrumado demais, e arrumado demais é sinal de que alguém preencheu lacuna por conta própria.

A pergunta que fica, e o caminho para respondê-la

Quando uma psicofonia é chamada de incorporação, e por quê?

Essa é a formulação honesta hoje. Não afirma que psicofonia é incorporação, nem que não é. Pergunta pela fronteira, que é justamente o que as fontes ainda não me deram por escrito.

Há um indício de que os termos não são intercambiáveis para André Luiz: em Mecanismos da Mediunidade, ao tratar dos fenômenos cristãos primitivos, ele menciona fatos de psicofonia e, logo adiante, descreve Ágabo como alguém que incorpora um Espírito benfeitor. Hipótese se ele escolhe palavras diferentes em contextos próximos, provavelmente elas não dizem exatamente a mesma coisa.

O plano de leitura

A ideia não é fazer a Doutrina caber na minha tabela. É deixar Kardec e André Luiz montarem a tabela, e aceitar que ela fique incompleta enquanto eles não a completarem.

O que já dá para levar para a prática

De onde veio esta pesquisa

Registro o caminho porque ele explica o formato do estudo.

Começou em aula, quando apareceu a associação direta entre psicofonia e incorporação, como se uma fosse o nome da outra. Perguntei o que me incomodava: e a psicografia mecânica, então? A mão do médium se move sem ele querer, ele não sabe o que está sendo escrito. Isso não é domínio do corpo também? A resposta foi que incorporação é da psicofonia, e essa é a convenção adotada no curso.

Meses depois, ouvi que um médium podia estar desdobrado, consciente, e ainda assim em incorporação. Achei impossível. Era o capítulo 6.

Comentário meu. Nas duas vezes eu quis fechar a conta rápido demais. A primeira versão deste estudo respondia tudo; esta aqui responde menos e sustenta mais. A dúvida original voltou a ficar aberta, e isso é bom, porque agora ela está aberta no lugar certo, com as obras na mesa e a pergunta bem formulada.

Fontes

Onde a afirmação é minha, está marcada como síntese ou hipótese. Onde é da obra, está o capítulo ou o item para conferência. Trechos citados aparecem em paráfrase fiel ao sentido, e a numeração de itens e capítulos pode variar conforme a edição.

Nada encontrado neste estudo com esse termo.