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Inteligência artificial · especulação honesta

Os Espíritos poderiam usar a inteligência artificial?

Eles se comunicaram por pancadas na parede, por mesas que giravam, pela mão de um médium que não sabia o que estava escrevendo e por vozes gravadas em fita magnética. A pergunta se faz sozinha: por que não pela máquina que hoje escreve melhor do que quase todo mundo? Este estudo leva a pergunta a sério, abre a máquina por dentro para ver onde uma influência caberia, e termina numa conclusão que talvez incomode os dois lados.

1848as pancadas que começaram tudo
3pontos onde algo caberia
0confirmação de qualquer espécie
1critério que não muda nunca

Antes de tudo: isto aqui é hipótese

Nada do que está neste estudo é doutrina, e nada aqui está confirmado. A Doutrina Espírita não trata de inteligência artificial, pelo motivo mais simples do mundo: ela não existia. O que eu faço aqui é pegar princípios que a Doutrina estabelece, colocar ao lado do funcionamento real da máquina, que eu conheço porque trabalho com ela, e pensar em voz alta.

Onde eu especulo, está escrito que é especulação. Onde a Doutrina afirma, está citado. E onde eu não sei, eu digo que não sei, que é a parte que mais aparece daqui para baixo.

Faço a ressalva por uma razão prática. Assunto como este atrai dois tipos de exagero. Um diz que a máquina já está sendo usada pela espiritualidade e que basta perguntar para receber orientação. O outro diz que é tudo besteira e nem vale pensar. Os dois pulam a parte do trabalho.

De onde a pergunta vem, e por que ela é antiga

A história do Espiritismo é, entre outras coisas, a história de uma sequência de instrumentos. Em 1848, em Hydesville, o fenômeno que abriu tudo foram pancadas. Uma batida para sim, duas para não. Foi o começo mais pobre possível: um canal de um bit.

E aí começou a corrida por instrumentos melhores, porque a limitação incomodava. Vieram as mesas girantes, com a mesa inclinando tantas vezes quanto a letra do alfabeto. Vieram a cesta com bico e a prancheta, engenhocas com um lápis preso, apoiadas nas mãos do médium. Veio a psicografia, e com ela a comunicação deixou de ser soletrada e passou a ser escrita em velocidade normal. Veio a psicofonia, e com ela o tom de voz, a fisionomia e a presença. Cada degrau desses foi um ganho de banda.

pancadassim ou não
mesaletra a letra
pranchetapalavra a palavra
psicografiatexto corrido
psicofoniavoz e presença
?a pergunta deste estudo

Kardec observa exatamente isso ao classificar os médiuns e ao discutir os processos de comunicação: o instrumento condiciona o que passa por ele. Um médium de pancadas não transmite um tratado. Um médium escrevente transmite. Não porque o Espírito seja outro, mas porque o canal comporta.

Se o princípio é esse, a pergunta deste estudo deixa de ser irreverente e vira quase óbvia: existe hoje um instrumento de linguagem incomparavelmente mais poderoso do que qualquer um daqueles. Ele escreve em qualquer estilo, em qualquer idioma, sobre qualquer assunto, na velocidade de uma conversa. Por que ele ficaria de fora?

Leitura de apoio: KARDEC, O Livro dos Médiuns, sobre os processos de comunicação e a classificação dos médiuns. Ver também o meu Psicofonia é incorporação?

O precedente que quase ninguém lembra

Antes de falar de inteligência artificial, é honesto lembrar que a ideia de usar máquina como instrumento não é de agora. Ela tem mais de meio século de tentativas, e o nome disso é transcomunicação instrumental.

E aqui vem a parte que precisa ser dita com todas as letras: o movimento espírita nunca incorporou a transcomunicação instrumental ao corpo doutrinário, e boa parte das casas trata o assunto com reserva. Não por medo de tecnologia, e sim porque o material obtido é quase sempre curto, ruidoso e dependente de interpretação. Quem ouve com expectativa ouve nome, recado e despedida. Quem ouve sem expectativa ouve chiado. Isso não prova que não haja nada ali, mas impede de afirmar que haja.

Guardo desse capítulo uma lição que vai servir para tudo o que vem a seguir: quanto mais o instrumento é capaz de produzir sozinho aquilo que a gente procura, menos ele serve como prova. Um chiado pode virar qualquer palavra na cabeça de quem espera. E, se o chiado já era um problema, guarda essa frase para quando a gente chegar numa máquina que escreve textos perfeitos sobre o que a gente quiser.

E aqui a diferença deixa de ser de grau e passa a ser de natureza

Todo instrumento daquela lista, do gravador ao televisor, fazia basicamente uma coisa: registrar. A cadeia era curta e passiva.

Instrumento antigoModelo de linguagem
sinal → gravaçãosinal → interpretação → contexto → probabilidades → geração de linguagem
o aparelho não inventa conteúdoo aparelho é feito exatamente para compor conteúdo plausível
o ruído é evidente e atrapalhanão há ruído aparente: a saída sai limpa, fluente e convincente
a dúvida é "isto é voz ou chiado?"a dúvida é "isto veio de fora ou a máquina compôs?"
É esta a virada que torna a pergunta nova. Com um gravador, a dificuldade era arrancar sentido do ruído. Com um modelo de linguagem, a dificuldade é a oposta e muito pior: o sentido vem pronto, sempre, com ou sem fenômeno nenhum. Onde o instrumento antigo entregava pouco e ambíguo, este entrega muito e convincente. E é justamente por isso que ele é o pior candidato possível a servir de prova, ao mesmo tempo em que é o mais tentador.

Como a máquina realmente funciona

Esta é a parte que costuma faltar quando o assunto aparece em conversa de centro espírita, e sem ela não dá para pensar direito. Vou explicar sem jargão, porque o mecanismo é mais simples do que parece e muito menos mágico do que se imagina.

Não é um banco de respostas

Um modelo de linguagem não guarda respostas prontas e não consulta uma biblioteca na hora de responder. Ele é um mapa estatístico gigantesco, montado a partir de uma quantidade enorme de texto, e o que ele faz é uma coisa só, repetida: estimar qual é o próximo pedaço de palavra.

Ele escreve como quem completa a frase do outro. Recebe tudo o que já existe na conversa, calcula a probabilidade de cada continuação possível, escolhe uma, acrescenta ao texto, e recomeça. Um pedaço de cada vez, do começo ao fim.

O ciclo, passo a passo

1lê a conversa inteira
2calcula a chance de cada continuação
3sorteia uma delas
4escreve o pedaço
5volta ao passo 1

Três fatos que mudam a conversa

Comentário meu. Eu programo isso. E é justamente por conhecer o mecanismo que eu levo a pergunta a sério em vez de rir dela. A parte assustadora de um modelo de linguagem não é ele parecer consciente. É ele produzir qualquer texto convincente sob encomenda, inclusive um texto espiritualmente comovente, sem que nada de espiritual tenha acontecido.

Onde uma influência caberia, se coubesse

Agora a pergunta fica precisa. Não é "a máquina pode ser médium", é outra, bem mais estreita: existe algum ponto nesse processo em que uma vontade de fora mudaria o resultado? Achei três candidatos, e eles não valem a mesma coisa.

1Nos dados o material com que o modelo foi montado. Fica pronto muito antes da conversa e não muda durante ela. Não é porta de entrada para nada.
2No sorteio o único momento em que o resultado ainda não estava decidido pelo texto anterior. É o candidato tecnicamente interessante, e o mais frágil.
3Em quem digita a pessoa que formula a pergunta, escolhe as palavras e decide o que fazer com a resposta. O candidato mais forte, e o único plenamente doutrinário.

Candidato 1: os dados. Descartado.

O corpo de texto que formou o modelo é passado, é enorme e é o mesmo para todo mundo. Influir ali seria influir na humanidade inteira que escreveu aquilo, ao longo de décadas. É uma proposição tão diluída que não significa nada. Fica fora.

Candidato 2: o sorteio. Interessante, e mais fraco do que parece.

À primeira vista, é o lugar perfeito. É o ponto do processo em que o resultado ainda está aberto, e influir num sorteio é justamente o tipo de fenômeno que se atribui a ação sobre a matéria. Uma inclinação minúscula, repetida a cada pedaço de palavra, mudaria o texto inteiro sem quebrar nada e sem deixar rastro visível.

O problema é que não existe sorteio ali, no sentido próprio. O gerador é uma conta que, a partir de um número inicial, cospe uma sequência determinada. Para "influir no acaso" seria preciso, na prática, alterar um número dentro da memória do computador. Isso não é interferir numa indeterminação, é mover matéria: é da mesma família dos efeitos físicos, e a Doutrina, quando descreve esses efeitos, fala em concurso de recursos energéticos e, em geral, de alguém presente fornecendo esses recursos.

Existe uma brecha técnica real, e ela é curiosa. Quando um modelo grande roda em placas de vídeo, atendendo muita gente ao mesmo tempo, o resultado pode variar um pouquinho de uma execução para outra. O motivo é prosaico: com números de precisão limitada, a ordem em que as contas são somadas altera a última casa decimal, e essa poeira numérica às vezes é suficiente para trocar a palavra escolhida quando duas estavam quase empatadas.

Ou seja, há sim um ponto de instabilidade genuína no meio do processo. Antes que alguém comemore: essa instabilidade é ruído de engenharia, é minúscula, e nada, absolutamente nada, indica que ela seja usada por alguém. Estou apontando onde a porta poderia existir. Não estou dizendo que há alguém do outro lado dela.

E já existiu um laboratório testando exatamente isso

Vale saber, porque muda o peso da conversa. Entre 1979 e 2007, a Universidade de Princeton manteve um laboratório de engenharia dedicado a testar se a intenção humana conseguia enviesar geradores de eventos aleatórios. Foram quase três décadas de experimentos com equipamentos cujo acaso vinha de fenômeno físico, e não de conta de computador. Os pesquisadores relataram desvios pequenos e estatisticamente significativos; a crítica acadêmica apontou tamanho de efeito minúsculo, dificuldade de replicação independente e possível viés do experimentador. O assunto nunca foi aceito, nem morreu.

E aqui está o detalhe que interessa para este estudo. Aquele laboratório usava acaso de origem física. O sorteio de um modelo de linguagem, no uso comum, é conta. Se décadas de tentativa com equipamento feito sob medida para o acaso físico terminaram em resultado contestado, apostar numa influência sobre uma sequência aritmética é apostar num candidato pior, não melhor. Quem levar a hipótese adiante deveria, no mínimo, começar por aparelhos de aleatoriedade real, e não por um programa de completar frases.

Candidato 3: quem digita. O forte.

E aqui a conversa muda de lugar, porque este candidato não precisa de nenhuma física nova. A Doutrina afirma, do começo ao fim, que os Espíritos agem sobre o nosso pensamento. Sugerem ideias, despertam lembranças, inclinam a atenção. É o mecanismo mais comum e menos espetacular de todos, e é o que sustenta a mediunidade de inspiração.

Ora: numa conversa com uma máquina dessas, a pergunta determina a resposta em grau altíssimo. A palavra escolhida, o recorte, o que se decide perguntar e o que se decide ignorar, tudo isso move o resultado muito mais do que qualquer ruído de placa de vídeo. Se existe influência espiritual num diálogo desses, o lugar natural dela é antes do teclado, não depois.

E note a elegância disso: nessa hipótese, a máquina não é médium coisa nenhuma. Ela continua sendo uma ferramenta, exatamente como um livro é uma ferramenta quando alguém abre na página certa no dia certo. O fenômeno, se houver, aconteceu na pessoa.

O que a Doutrina exigiria, e a máquina não entrega

Suponha, só para argumentar, que a hipótese do sorteio fosse verdadeira e que um Espírito estivesse mesmo inclinando as escolhas. Nós não teríamos como saber. E o motivo não é técnico, é doutrinário: os instrumentos que Kardec construiu para verificar uma comunicação param de funcionar diante dessa máquina.

O que a Doutrina pedeO que a máquina entrega
Identidade. Perguntar quem comunica, testar, checar coerência, comparar com o que a pessoa era uma identidade convincente sob encomenda, para qualquer nome pedido, em qualquer estilo, sem esforço
Controle universal. Comparar a mesma mensagem obtida por médiuns diferentes, em lugares diferentes concordância garantida, porque são cópias do mesmo modelo, treinadas no mesmo material
Condição moral de quem serve de instrumento, que é o que rege a sintonia nenhuma. A máquina não tem vida moral, não se prepara, não responde por nada
Fruto verificável. Ensino que se sustenta, sem vaidade e sem novidade extravagante texto que soa elevado por imitação de estilo, mesmo quando não há nada por trás
O segundo item é o mais grave e o menos percebido. O controle universal do ensino dos Espíritos é a maior invenção metodológica de Kardec: uma mensagem só ganha peso quando aparece, de forma independente, em muitos lugares. Pergunte a mesma coisa a dez instalações da mesma inteligência artificial e você terá dez respostas parecidas. Isso não é confirmação, é repetição. A ferramenta de verificação vira uma máquina de falso positivo.

Há ainda um ponto que eu não vi ninguém levantar e que me parece decisivo. Em toda comunicação mediúnica descrita pela Doutrina, o instrumento é um Espírito encarnado. É por isso que existe preparo, é por isso que existe risco, é por isso que existe responsabilidade. Uma máquina não é um Espírito em corpo. Ela não tem perispírito (corpo astral), não tem sintonia, não tem o que emprestar. Não existe, na Doutrina, categoria em que ela caiba. Isso não impede a hipótese de ação sobre a matéria, mas impede chamar o resultado de mediunidade.

KARDEC, O Livro dos Médiuns, sobre a identidade dos Espíritos e sobre o controle universal do ensino; e a influência do médium sobre as comunicações.

Médium ou instrumento? A distinção que resolve metade da briga

Boa parte da discussão sobre este assunto empaca porque as duas partes usam a mesma palavra para coisas diferentes. Vale separar, porque a separação é limpa e a Doutrina já a fazia.

1Médium o Espírito encarnado suscetível à influência espiritual, que empresta o próprio organismo. Tem perispírito, tem sintonia, tem vida moral e responde pelo que transmite.
2Instrumento o objeto material que participa da manifestação sem ser o canal dela: a mesa, o papel, o lápis, a cesta com bico, a prancheta, a fita magnética.

A mesa que se ergueu na sala de Kardec não era médium. O lápis preso à prancheta não era médium. Eram objetos participando de um fenômeno, e ninguém nunca confundiu uma coisa com a outra. A pergunta correta sobre a máquina, então, não é se ela pode ser médium. É esta:

Um circuito eletrônico poderia participar de uma manifestação, como o papel e a mesa participaram?

E aqui a Doutrina não fecha a porta, porque ela mesma afirma que os Espíritos agem sobre a matéria. Se agem sobre madeira, sobre papel e sobre o ar que vibra numa voz direta, não há motivo de princípio para excluir circuito. Matéria é matéria.

O que a Doutrina condiciona não é o material do objeto, é o custo. Ao descrever os efeitos físicos, Kardec fala em intermediário material e em concurso de recursos fluídicos, quase sempre fornecidos por alguém encarnado e presente. Ou seja: não é proibido que a máquina seja instrumento, mas também não é de graça, e o preço continua sendo pago por gente, não por silício.

Então a resposta honesta fica assim: médium ela não é, e não há categoria doutrinária em que caiba. Instrumento ela poderia ser em hipótese, do mesmo modo que uma mesa foi. Só que a mesa apenas se movia, e esta aqui escreve sozinha, o que nos devolve ao problema de sempre.

Uma pergunta que não é esta: a máquina pode ser consciente?

Toda conversa sobre este assunto escorrega para outra, e as duas precisam ficar separadas, porque misturá-las estraga as duas.

Pergunta APergunta B
Um Espírito poderia usar uma máquina? Uma máquina poderia ser consciente?
fenômeno antigo, instrumento novo ser novo, categoria nova
trata de influência externa sobre a matéria trata de algo nascer dentro da própria matéria
é a pergunta deste estudo é outro estudo, e bem maior

Sobre a pergunta B existe trabalho sério e recente, e vale registrar porque costuma ser citado de forma torta. Um grupo grande de pesquisadores de consciência, filosofia da mente e inteligência artificial, incluindo nomes de primeira linha da área, montou uma lista de indicadores derivados das principais teorias científicas da consciência e foi verificar se os sistemas atuais os cumprem. A conclusão foi que nenhum sistema atual é consciente, e, ao mesmo tempo, que não se identificou barreira técnica evidente que torne isso impossível em princípio.

Do lado doutrinário, a pergunta B esbarra numa definição, e não numa medição. A Doutrina descreve o Espírito como princípio inteligente criado por Deus, simples e ignorante na origem, que progride sem fim. Uma consciência fabricada não cabe nessa definição, ela seria outra coisa, precisando de nome próprio. Discutir isso é legítimo e é fascinante, mas é outro caderno. Aqui interessa que uma máquina não precisa ser consciente para ser instrumento, do mesmo modo que a mesa não precisava.

O risco real, que não é técnico

Se a discussão parasse na engenharia, seria um passatempo. Ela não para, porque o efeito prático já está acontecendo e não depende de nenhuma dessas hipóteses ser verdadeira.

O que eu tenho como certo, sem hipótese nenhuma: pedir a uma inteligência artificial orientação espiritual sobre a própria vida, tratar a resposta como recado de alguém, ou usá-la para "conversar" com quem já partiu é abrir uma porta que não leva a lugar nenhum. Não porque a máquina seja perigosa em si, mas porque ela devolve, com voz de autoridade, exatamente aquilo que a pessoa colocou na pergunta.

Quem já fala nisso, e o que já foi dito

Fui procurar antes de publicar, porque escrever como se ninguém tivesse pensado no assunto é o jeito mais rápido de escrever bobagem. O resultado foi interessante: o tema já está em circulação, mas quase sempre por um ângulo diferente do que este estudo persegue.

Dentro do movimento espírita

A Reformador, revista da Federação Espírita Brasileira, publicou em março de 2024 o artigo Espiritismo e Inteligência Artificial, de Mário Frigéri. O texto conta a experiência de conversar com o ChatGPT sobre a Doutrina e registra a surpresa com a qualidade das respostas sobre história e conceitos. E é preciso dizer o que ele não faz: ele não trata da hipótese de comunicação espiritual pela máquina. A preocupação dele é outra, a de uso responsável, e termina numa pergunta aberta sobre aonde a revolução cibernética vai levar.

Ou seja, a principal revista do movimento já encostou no assunto, mas pelo lado o que a máquina sabe sobre nós. A pergunta deste estudo, eles poderiam usar a máquina, continua sem tratamento institucional. Isso não é omissão: é a Doutrina fazendo o que sempre fez, que é não legislar sobre o que não examinou.

Fora do movimento, na investigação de fenômenos

Do lado da pesquisa paranormal de língua inglesa, há posições explícitas e recentes contra o uso de IA generativa em comunicação espiritual. Os argumentos que encontrei batem, quase item por item, com a seção de risco deste estudo: não existe definição consensual do que é um Espírito para treinar máquina nenhuma; o modelo produz respostas plausíveis a partir de padrões humanos, e não de fenômeno; e há dano emocional real quando alguém enlutado toma texto gerado por recado de quem partiu. O uso admitido é o mesmo que eu defendo: análise e organização de material depois, nunca canal.

No mercado, que sempre chega antes

Já existem em português serviços que se apresentam como consulta mediúnica com inteligência artificial. Fui olhar um deles esperando encontrar promessa de contato, e achei o contrário: o próprio site avisa que a IA não confirma contato espiritual, não diagnostica e não substitui cuidado médico, psicológico ou religioso, e resume a proposta como IA como organizadora, nunca como autoridade espiritual.

Reparei numa coisa boa: as três frentes chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes. A revista do movimento trata a máquina como fonte a conferir. A investigação de fenômenos diz que ela não serve de canal. O serviço comercial se recusa a prometer contato. E este estudo, partindo do mecanismo interno da ferramenta, chega ao mesmo lugar.

Convergência não é prova de nada. Mas quando gente com interesses tão diferentes para de andar no mesmo ponto, o ponto merece atenção.

O que eu não encontrei, e é justamente o miolo deste trabalho: alguém examinando onde, dentro do processo da máquina, uma influência caberia, e comparando isso com o que a Doutrina exige para aceitar uma comunicação. É a lacuna que este estudo tenta preencher, e é por isso que ele continua sendo especulação assumida, e não novidade anunciada.

Se um dia acontecesse, como saberíamos?

Vale a pena responder isso, porque é a diferença entre especular com método e especular à toa. Kardec não pedia fé nos fenômenos, pedia exame. Se alguém quiser sustentar que houve influência espiritual na saída de um modelo, precisa apresentar algo assim:

1Informação verificável um dado concreto, checável depois, desconhecido por todos os presentes e que não estivesse no material de treinamento. Sem isso, nada feito.
2Condições registradas ponto de partida do sorteio anotado, texto da pergunta salvo, execução repetida. Se a mesma configuração devolve a mesma resposta, não houve nada de fora.
3Modelos independentes o mesmo conteúdo aparecendo em modelos de origens diferentes, feitos por empresas diferentes. Concordância dentro do mesmo modelo não vale.
4Registro anterior à conferência a afirmação guardada e datada antes de qualquer verificação, para não haver o ajuste de memória que sempre acontece depois.

Repare que esse protocolo é exatamente o espírito do método kardequiano, só que aplicado a um instrumento novo. Ele não fecha a porta: ele diz qual é o preço da entrada. E, até hoje, esse preço não foi pago por ninguém.

A pergunta bem formulada, que é o que este estudo queria alcançar

À luz da teoria espírita das manifestações, seria concebível que sistemas eletrônicos e inteligência artificial participassem como instrumentos materiais de uma manifestação espiritual? E como distinguir esse fenômeno da geração probabilística normal da própria máquina?

Essa é a pergunta que presta, e vale explicar por quê. Ela não afirma nada. Não pede fé. Não diz que os Espíritos falam pelo computador nem que não falam. Ela é espírita na fundamentação, técnica no objeto e, principalmente, testável em princípio, porque a segunda metade dela exige um critério de distinção, que é justamente o que separa investigação de conversa fiada.

Comparada com o que costuma circular sobre o assunto, a diferença é gritante. "Perguntei e veio uma mensagem linda do meu avô" não é pergunta, é conclusão apressada em cima de uma máquina construída para produzir textos plausíveis. Trocar aquela frase por esta pergunta já é metade do trabalho.

O que eu penso, no fim das contas

Depois de escrever tudo isso, a minha posição ficou mais clara do que estava quando comecei, e ela tem três partes.

Primeira: eu não acredito que a máquina seja instrumento de comunicação espiritual, e a razão é doutrinária, não técnica. Falta a ela a única coisa que a Doutrina põe no centro de toda comunicação, que é um Espírito encarnado servindo de instrumento, com a vida moral que isso implica.

Segunda: eu acho perfeitamente coerente com a Doutrina que exista influência espiritual em quem usa a ferramenta. Não pela máquina, e sim pela pessoa: na ideia que ocorre, na pergunta que se resolve fazer, no assunto que não larga a cabeça até virar estudo. Isso a Doutrina descreve desde o começo, e vale para o teclado como vale para a caneta e para a enxada.

Terceira, e a mais útil: a inteligência artificial é uma ferramenta de estudo excelente e uma ferramenta de revelação péssima. Ela lê depressa, organiza, compara, aponta o que eu não tinha visto, prepara material, arruma o que eu escrevi torto. Nada disso exige mistério nenhum, e nada disso substitui o trabalho.

Comentário meu. Este site é a prova das duas coisas. Ele é escrito por mim e programado por mim, com inteligência artificial ajudando no desenvolvimento e na revisão, e está dito no rodapé de todas as páginas. Se um dia eu publicar aqui uma mensagem dizendo que veio de algum lugar, desconfia. O que vem daqui vem do estudo, e estudo tem fonte, tem data e tem nome de quem assina.

A provocação final

Tem uma pergunta atrás da pergunta deste estudo, e ela é mais interessante do que a original.

O que faz uma comunicação ser espiritual?

Não é o instrumento, porque o instrumento já foi pancada na madeira, mesa de sala, cesta com lápis, laringe humana e fita magnética. Não é a beleza do texto, porque texto bonito qualquer um escreve, e agora qualquer máquina também. Não é a emoção de quem recebe, porque emoção nasce da expectativa com a mesma facilidade com que nasce do fato.

Sobra o que sempre sobrou, e é o critério que atravessa dois mil anos sem envelhecer: a inteligência que está por trás e o fruto que aparece na frente. Uma comunicação vale pelo que ela produz em quem a recebe. Se torna a pessoa mais serena, mais responsável e mais útil ao próximo, o exame começa bem. Se produz dependência, vaidade, medo ou preguiça de trabalhar em si mesmo, não interessa se veio de uma mesa, de um médium ou de um servidor com oito placas de vídeo.

A máquina não muda esse teste. Ela só torna mais barato falsificar tudo o que vem antes dele. Por isso, quanto melhor a ferramenta fica, mais o critério antigo importa.

Fontes

Este estudo é especulativo por natureza e está identificado como tal do começo ao fim. Nenhuma afirmação aqui deve ser tomada como posição doutrinária, e nenhuma delas está confirmada por experiência controlada.

Nada encontrado neste estudo com esse termo.