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Espiritismo · bioética

Criopreservação embrionária

Existem, hoje, centenas de milhares de embriões humanos guardados em nitrogênio líquido, alguns há mais de vinte anos. A pergunta que chega à casa espírita é sempre a mesma: há um Espírito ligado ali? Este estudo reúne o que Kardec estabelece, o que André Luiz descreve, o que a lei brasileira permite, e separa com cuidado o que é fonte do que é conclusão nossa.

344a questão que sustenta tudo
-196 °Ca temperatura da suspensão
100.380embriões congelados no Brasil só em 2020
0respostas prontas na Codificação

Como ler este estudo

Este é um assunto em que a Doutrina não tem resposta pronta, pelo motivo mais simples do mundo: a técnica não existia quando as obras foram escritas. Então tudo aqui é aplicação de princípios, e é honesto marcar de onde vem cada afirmação:

Fonte está dito na obra, com capítulo ou item para conferir.
Síntese é a junção de duas ou mais afirmações das obras, feita por mim.
Hipótese é conclusão minha, ainda sem confirmação nas obras.
E uma palavra antes de começar. Este texto trata de decisões que famílias reais estão tomando agora, muitas delas depois de anos tentando ter um filho. Não escrevi uma linha aqui para produzir culpa em ninguém. Onde a Doutrina não define, quem escreve não pode definir no lugar dela, e quem estuda não pode transformar dúvida em acusação.

O que é criopreservação, tecnicamente

Sem entender o procedimento, o resto vira palpite. E o procedimento tem detalhes que mudam a conversa doutrinária.

Por que sobram embriões

Na fertilização in vitro, a mulher passa por estimulação ovariana para produzir vários óvulos de uma vez, porque repetir o ciclo é caro, demorado e desgastante. Os óvulos são fecundados em laboratório e formam-se vários embriões. Transfere-se um ou dois, para evitar gestação múltipla de risco, e os demais são congelados. Os embriões que sobram desse processo são chamados de excedentários.

Como o congelamento funciona

Guarde estes três fatos, porque são eles que criam o problema doutrinário: 1) o embrião congelado está em suspensão completa, não em desenvolvimento lento; 2) ele está fora do corpo da mãe; 3) o tempo dessa espera é indefinido, e pode ultrapassar a vida dos pais.

O que a lei brasileira estabelece

Vale conhecer, porque a decisão da família acontece dentro dessas regras, e porque muita gente discute o assunto imaginando um vazio legal que não existe.

Prazos e regras mudam com frequência. Antes de decidir qualquer coisa, confirme a norma vigente com a clínica e, se necessário, com orientação jurídica.

O que Kardec estabelece

A base está em O Livro dos Espíritos, segunda parte, no capítulo do retorno à vida corporal, na seção que se chama, literalmente, União da alma e do corpo. Aborto. É ali que Kardec pergunta o que interessa a este estudo.

Fonte A questão 344

“A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao instante em que a criança vê a luz.”

Quatro coisas ficam estabelecidas nessa resposta, e vale destacá-las uma a uma:

O que a resposta afirmaPor que importa aqui
A união começa na concepçãonão é um evento posterior, e também não é o fim do processo
Ela só se completa no nascimentoexiste um longo período intermediário, com ligação parcial
O laço é fluídiconão é material; é da ordem do perispírito (corpo astral)
Ele vai apertando progressivamentea ligação tem intensidade variável ao longo do tempo

Fonte A questão 345, e o detalhe que quase ninguém cita

Perguntado se a união é definitiva desde a concepção, o texto responde que é definitiva no sentido de que outro Espírito não poderia substituir o que está designado para aquele corpo. E acrescenta o que costuma ficar de fora das discussões: os laços que prendem o Espírito ao corpo, nessa fase, são ainda muito fracos e se rompem com facilidade, podendo romper-se por vontade do próprio Espírito, caso em que a criança não vinga.

Esse trecho derruba de uma vez duas leituras extremas que circulam. Não é verdade que a ligação inicial seja irreversível, porque a própria resposta prevê o rompimento. E também não é verdade que o embrião inicial seja indiferente, porque há designação: aquele corpo tem um Espírito destinado a ele, e não outro.

Fonte E o que Kardec não trata

A seção inteira pressupõe uma coisa que nunca precisou ser dita no século XIX: que a concepção aconteceu dentro do corpo de uma mulher e que a gestação está em curso. Não há, em lugar nenhum da Codificação, tratamento de concepção fora do corpo, de desenvolvimento interrompido por técnica, nem de espera indefinida.
Isso não é falha da obra. É o limite normal de qualquer texto diante de uma técnica que apareceria um século depois.

KARDEC, O Livro dos Espíritos, segunda parte, cap. VII, seção União da alma e do corpo. Aborto, questões 344 a 360. Numeração varia entre edições.

O que André Luiz descreve

Se Kardec estabelece o princípio, a literatura mediúnica descreve o processo por dentro. A descrição clássica está em Missionários da Luz, capítulo 13, “Reencarnação”, no acompanhamento do caso de Segismundo.

Fonte O que a descrição traz

Repare no que essa descrição pressupõe do começo ao fim: um corpo materno. O glóbulo de luz está interpenetrado no perispírito da mãe. A forma reduzida é ajustada ao útero. Não há, nessa narrativa, embrião algum fora do organismo, e não haveria como haver, porque a obra é dos anos 1940.

ANDRÉ LUIZ (pelo médium Francisco Cândido Xavier), Missionários da Luz, cap. 13, Reencarnação. Obra concluída em 1945.

O desenvolvimento de Hernani Guimarães Andrade

Vale conhecer, porque é a tentativa mais estruturada de explicar como um embrião se organiza numa forma. Hernani Guimarães Andrade, engenheiro e pesquisador espírita, fundador do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas em 1963, propôs o Modelo Organizador Biológico, uma elaboração do conceito kardequiano de perispírito.

Na proposta dele, o modelo é um campo organizador que se liga ao óvulo e conduz o desenvolvimento embrionário, fetal e corporal, permanecendo depois como suporte da forma e da renovação celular durante toda a vida. É a ideia de um molde que informa a matéria sobre a forma a assumir.

Isso é desenvolvimento teórico, e não Codificação. Ele mesmo apresentava a proposta como hipótese de trabalho a ser pesquisada, que era exatamente o método dele.

Onde a técnica entra na linha do tempo

Colocando lado a lado a gestação que as obras descrevem e o que acontece na fertilização in vitro com criopreservação, o ponto do problema aparece sozinho:

Como as obras descrevem concepção laço fluídico começa gestação em curso o laço vai apertando, sem interrupção nascimento união completa Como acontece com criopreservação fecundação em laboratório suspensão a -196 °C meses, anos ou décadas descongelamento e transferência nascimento união completa é este intervalo que as obras não descrevem
O trecho tracejado é a novidade. Tudo o mais já estava descrito.

As perguntas que a técnica criou

Postas as fontes, dá para enunciar as perguntas com precisão. Nenhuma delas tem resposta em Kardec, e é exatamente por isso que elas merecem ser feitas direito:

Não vou responder nenhuma dessas com aparência de certeza, porque não tenho como. O que dá para fazer, e é o trabalho honesto, é mostrar as duas leituras que circulam no movimento espírita e o que cada uma sustenta.

As duas leituras que circulam no movimento

Pesquisando o assunto em publicações espíritas, encontrei duas posições bem definidas. Elas partem das mesmas questões 344 e 345 e chegam a lugares diferentes.

AHá ligação desde a fecundação inclusive na fecundação in vitro. Durante o congelamento, a perturbação do Espírito seria mínima, porque o embrião tem pouquíssimas células e o laço está no início, deixando-o relativamente livre para atividades no plano espiritual.
BNem toda fecundação tem Espírito ligado a ligação depende de haver processo reencarnatório efetivamente em curso. Embrião que não se desenvolve e não oferece condições de vida não reteria ninguém, e há embriões que nunca tiveram Espírito ligado.

Síntese O que as duas têm em comum

E há um argumento de peso que serve às duas: a Doutrina afirma que a lei divina é justa e que a reencarnação é dirigida por inteligências que sabem o que estão fazendo. Nenhuma delas precisa supor que um Espírito seria deixado preso, por décadas, a um material que talvez nunca se desenvolva. Isso não caberia nos atributos de Deus estabelecidos no primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos.

Ver Deus, sobre os atributos, especialmente o soberanamente justo e bom

O que dá para afirmar com segurança

A conversa que realmente acontece na casa espírita

O casal que chega para conversar sobre isso não está fazendo filosofia. Em geral já passou por anos de tentativa, tratamento caro, perdas, e agora tem quatro, seis, oito embriões guardados e um prazo se aproximando. O que essa gente precisa não é de uma sentença.

O que não se deve dizer

O que dá para oferecer, com honestidade

Comentário meu. A régua que eu tirei deste estudo é curta: quando a Doutrina não define, o trabalho é acompanhar, não julgar. É menos confortável do que ter uma resposta pronta, e é o que sobra de honesto.

O que eu penso, marcado como o que é

Hipótese Lendo as fontes juntas, o que me parece mais coerente é que a designação e o laço fluídico se estabeleçam quando o processo reencarnatório é efetivamente iniciado, e não pelo simples fato de haver material genético unido numa placa de laboratório. As duas razões que me levam a isso:

E eu não tenho como demonstrar isso. É leitura minha, e fica registrada como leitura minha. Se algum dia aparecer material doutrinário que trate diretamente do assunto, esta página muda.

O que eu não faço, e recomendo que ninguém faça: transformar hipótese em permissão. Dizer “provavelmente não há Espírito ligado” não é o mesmo que dizer “então tanto faz”. A dúvida pede mais cuidado, não menos.

O que continua em aberto

Nenhuma dessas lacunas é motivo para inventar resposta. É motivo para estudar, e para dizer com clareza onde termina o que está escrito.

De onde veio este estudo

Não nasceu de leitura, nasceu de uma pergunta bem feita. Uma colega de turma assistiu ao vídeo do caso dos gêmeos nascidos nos Estados Unidos em 2022, a partir de embriões congelados em 1992, e trouxe a questão: e se havia um Espírito ligado ali, o que aconteceu durante esses trinta anos?

Achei a pergunta excelente, e ela tem uma qualidade rara: não dá para responder com frase feita. Eu não sabia a resposta, ninguém ali sabia, e desconfiei na hora que a Codificação não trataria disso, pelo motivo óbvio. Fui atrás para descobrir o que as obras efetivamente dizem, o que a técnica efetivamente faz, e onde exatamente termina uma coisa e começa a outra.

O resultado é este estudo, e ele responde menos do que eu gostaria. A pergunta continua em aberto, e agora está aberta no lugar certo, com as fontes na mesa e as lacunas identificadas uma a uma. É o máximo que dá para fazer sem inventar.

Fontes

Onde a afirmação é minha, está marcada como síntese ou hipótese. Dados técnicos e legais mudam com o tempo: confirme prazos e normas antes de usar este material para decidir qualquer coisa.

Nada encontrado neste estudo com esse termo.