Onde está o relato
| Evangelho | Trecho | O que é próprio dele |
|---|---|---|
| Mateus | 8:28-34 | o mais curto; fala em dois homens; traz a frase “vieste atormentar-nos antes do tempo?” |
| Marcos | 5:1-20 | o mais completo; as correntes partidas, as pedras, o nome Legião, os dois mil porcos, o envio final |
| Lucas | 8:26-39 | o olhar do médico; anota que estava nu, sem casa, e que ficou “vestido e em perfeito juízo” |
| João | não registra | seu evangelho segue outro plano, centrado nos grandes discursos e nos sinais em Jerusalém |
Sobre o lugar, os manuscritos trazem Gadara, Gerasa e Gergesa. Todas ficam na mesma região a leste do lago, na Decápole, território de população majoritariamente não judaica. A variação é de nome de região, e não muda um detalhe do que aconteceu. O dado importante é outro: Jesus atravessou o lago para socorrer um homem em terra estrangeira, e voltou logo depois. A travessia inteira foi por causa dele.
O quadro, reunindo os três
Juntando o que cada evangelista anotou, o estado do homem era este:
- Morava entre os sepulcros, fora da cidade, entre os mortos. Marcos e Lucas insistem nisso.
- Ninguém conseguia prendê-lo. Já o haviam amarrado muitas vezes com grilhões e correntes, e ele quebrava tudo. A força era desproporcional ao corpo.
- Feria a si mesmo com pedras, dia e noite, clamando pelos montes.
- Andava nu, sem casa, sem convívio, sem nome próprio na boca de ninguém.
- Era temido: Mateus registra que ninguém podia passar por aquele caminho.
“Meu nome é Legião, porque somos muitos”
Jesus faz uma pergunta antes de qualquer coisa: “Qual é o teu nome?”. Não é curiosidade e não é fórmula. É o estabelecimento de um diálogo com quem estava agindo sobre aquele homem, e é o método que a Doutrina reconhece como correto até hoje.
A resposta vem no plural. Legião é a unidade militar romana, com milhares de soldados. Numa terra ocupada, ninguém escolhia essa palavra por acaso: ela evoca invasão, ocupação e número. Estava-se diante de um Espírito que respondia por um grupo, e de um homem que havia perdido o próprio comando.
Os graus da obsessão, segundo Kardec
O Livro dos Médiuns descreve três graus, e este caso é o extremo:
Isso muda o socorro inteiro. Não se expulsa um irmão: esclarece-se. Não se combate, se convence. E se socorre também quem obseda, porque ele é a outra vítima do mesmo processo. É por isso que a reunião espírita se chama desobsessão, e não exorcismo.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XXIII, Da obsessão
Os porcos, e o que a cidade escolheu
O rebanho estava ali porque aquela era terra de população não judaica, onde criar porcos era normal. Marcos conta que eram cerca de dois mil, e que a manada se precipitou pelo despenhadeiro no lago.
Não é um detalhe decorativo. Ele mostra que a ação dos Espíritos sobre a matéria e sobre os animais é real, e serviu ali como sinal visível de que alguma coisa de fato havia deixado aquele homem. Para uma população que jamais ouvira falar de vida espiritual, era a única prova que aquela gente entenderia.
E então vem o final mais duro do episódio. Os moradores chegam, encontram o antigo louco “assentado, vestido e em perfeito juízo”, e o texto diz que ficaram com medo. Não de alegria: de medo. E pedem que Jesus se retire das suas terras.
O que acontece com o homem curado
Ele pede para ir junto no barco. É o desejo mais compreensível do Evangelho inteiro: acabou de receber a vida de volta e quer ficar perto de quem a devolveu. E Jesus recusa.
“Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve compaixão de ti.”
Marcos 5:19
E ele foi. Marcos registra que começou a proclamar por toda a Decápole, dez cidades de população não judaica, e que todos se maravilhavam. O primeiro missionário em território estrangeiro foi um homem que dias antes vivia nu entre os túmulos.
O que este caso ensina sobre a desobsessão
- Primeiro o diálogo. Jesus pergunta o nome antes de qualquer ação. Esclarecer vem antes de afastar.
- O obsidiado não é culpado do estado em que está, e não deve ser tratado como responsável pelo próprio sofrimento.
- O obsessor também é socorrido. Ele é um Espírito em sofrimento, e o objetivo da reunião é o esclarecimento dele tanto quanto o alívio do encarnado.
- A cura se sustenta na mudança de sintonia. Sem transformação moral e sem amparo continuado, a porta permanece aberta.
- O amparo espiritual caminha junto do cuidado com o corpo. Kardec sempre colocou a ciência do corpo ao lado da assistência espiritual, e encaminhar ao médico faz parte da caridade.
- Respeita-se o livre-arbítrio. Jesus vai embora quando a cidade pede. Ninguém é socorrido à força.
Fontes
- Mateus 8:28-34, Marcos 5:1-20 e Lucas 8:26-39, os três relatos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, cap. XXIII, Da obsessão, e cap. XXIV e XXV, sobre identificação e mistificação.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII, sobre a prece pelos obsidiados.
- KARDEC, Allan. A Gênese, sobre os fenômenos ditos milagrosos e a ação dos Espíritos sobre a matéria.
- XAVIER, Francisco Cândido (Espírito André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade e Missionários da Luz, sobre os mecanismos da influência espiritual.